Conheça as experiências de quem tirou um período sabático e planeje o seu

Quem já tirou um merecido período de descanso na carreira conta como viabilizar o projeto

Por O Dia

Rio - Quando recebeu a proposta do namorado de partir para uma viagem de um ano pelo mundo, a fisioterapeuta Karina Palla, 35 anos, pensou se era prudente largar dois empregos públicos em São Paulo. Mas diante de uma oferta tentadora, decidiu embarcar na jornada por 32 países, em exatos 524 dias. A aventura provoca inveja a qualquer um que pensa em dar um tempo na carreira sempre que escuta o alarme tocar ou quando se depara com a caixa cheia de e-mails com cobranças, logo no início do dia. O tal “tempo” tem nome: período sabático. De origem judaica, o termo significa “dia de descanso”. Fora da liturgia religiosa, virou sinônimo de dar uma pausa.

“É uma quebra na rotina para repensar a vida. Tem gente que viaja, outros fazem retiro espiritual, estudam, fazem um trabalho voluntário ou até mesmo não fazem nada”, afirma Janaína Ferreira, especialistas em carreiras do Ibmec-RJ.

Para o consultor em educação Leonardo Tornel, 25, o período de um ano afastado do trabalho rendeu uma mudança de direcionamento na carreira. Na primeira metade do ano, passou seis meses em sua cidade natal, Juiz de Fora (MG), enquanto dava palestras esporádicas em eventos de liderança. Os últimos sete meses foram na Ásia.

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“Trabalhava numa escola infantil no Camboja. Passei por períodos de imersão na meditação e no budismo, que foram muito importantes para internalizar os conhecimentos acumulados durante o ano”, diz ele, que ao final do período passou em um mestrado em Educação em Londres, onde vive atualmente.

Apesar de parecer um luxo para poucos, quem já fez a pausa garante: tirar período sabático é viável. Entre os entrevistados pelo DIA, os valores gastos no período variaram de R$ 30 mil, custo da viagem de Leonardo, a R$ 138 mil. O período de afastamento, no entanto, exige planejamento.

Segundo a consultora de finanças práticas Waldeli Azevedo, o ideal é aplicar em investimentos conservadores. “Há a renda fixa que deve apresentar bons resultados, principalmente neste momento, de perspectiva de alta de juros. Por exemplo: os títulos pós-fixados. Para essa escolha, é preciso levar em consideração prazo do investimento e valor investido”, diz, destacando que não se deve pegar com empréstimos.

Karina e o então namorado Pablo Jacinto, 37, saíram pelo mundo em fevereiro de 2013. Segundo ela, o casal “cortou na carne” as despesas do dia a dia para se preparar. “Deixamos de viajar, não comprávamos nada e diminuímos muito o ritmo de saídas e restaurantes”, conta Karina. A recompensa veio em experiências como um passeio de balão na Turquia, uma visita a um orfanato em Uganda, na África, e e até um casamento surpresa no Havaí.

Com um orçamento mais modesto, o jornalista Rafael Coelho, 29, e a contadora Amanda Vidal, 24, também realizaram o sonho de viajar o mundo. Em pouco mais de um ano fora de casa, eles gastaram R$ 76 mil. Para viabilizar a viagem, venderam o carro e trocaram o imóvel que tinham em Niterói por uma casa na cidade natal, Guapimirim. “Nascemos numa cidade pequena, estudamos em escola pública, tínhamos empregos normais e viajamos de avião pela primeira vez há apenas quatro anos”, conta Rafael, afirmando que também contribuiu o fato de o casal levar uma vida simples, sem excessos de consumo.

“A gente tenta gastar dinheiro com aquilo que julgamos ser necessário. Sem grandes exageros ou luxos”, diz ele, que guarda na memória um ritual de cremação à beira do Rio Ganges, na Índia. “Talvez tenha sido uma das cenas mais impactantes que já vimos na vida. A cultura indiana é sempre um choque, apesar de ser encantadora”, completa ele, que conta a viagem no blog Aí vamos nós (www.aivamosnos.com).

Autora do site de viagens Eu sou a toa (www.eusouatoa.com), a jornalista Lívia Aguiar usou a poupança do dia a dia para bancar o sabático. Com R$ 32 mil, ela viajou o mundo por oito messes, em 2012.
“Nunca fui de gastar dinheiro, sempre separava R$ 500 reais no início do mês e colocava na poupança”, diz.

Um terço da despesa foi em passagens de avião e trem. Para quem está em dúvida se vale a pena tirar um sabático, ela tem a resposta na ponta da língua. “É bom para todas as profissões. É um momento em que você se conhece, conversa com você mesmo e redefine rumos”.


Guardar uma reserva é essencial

O planejamento de um período sabático deve incluir o dinheiro para o retorno à vida profissional. Segundo especialistas, quem pede demissão precisa deixar uma reserva para poder se sustentar por um período de três meses até um ano enquanto tenta uma recolocação no mercado.

No serviço público, há chances de conseguir licenças não remuneradas, ideais para quem quer tirar um sabático. Na iniciativa privada, empresas ainda são muito resistentes em aceitar esse tipo de licença. “Não é comum, a menos que seja pessoa chave na empresa, como um diretor que vai fazer um MBA, por exemplo”, exemplifica Janaína Ferreira.

Apesar deste entrave, muitas pessoas que tiram um sabático afirmam que não quiseram voltar para seus empregos originais.

Para quem pretende viajar, há muitos meios de economizar durante a viagem. Há formas de conseguir hospedagem gratuita (por meio do couch surfing, por exemplo), e existem passagens de volta ao mundo que saem mais baratas do que comprar os trechos separadamente.

A bebida alcoólica pesa no orçamento. Segundo Lívia, quem é adepto dos etílicos deve incrementar o orçamento da viagem em pelo menos 20%.

O consumo consciente está na rotina da maioria dos viajantes sabáticos. “Fomos com duas mochilas e voltamos com uma só. Damos muito menos valor ao material”, diz Karina.

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