Zona Oeste chora e Copacabana se revolta com mudança

Moradores de Copacabana reclamam de lixo nas ruas e falta de transporte, mas comerciantes apostam em lucros maiores. Já em Guaratiba, a decepção foi geral

Por tamyres.matos

Rio - A mudança repentina da programação dos últimos eventos da Jornada dividiu opiniões de moradores e comerciantes na Princesinha do Mar. “É prisão domiciliar. Não posso pegar ônibus, metrô, táxi. Se sair de carro, não posso voltar. Moro no Corte do Cantagalo, mas a estação do metrô que é próxima daqui está fechada. Acabei de saber que o evento se estenderá até domingo. Quer dizer que ficarei preso em casa quatro dias?!”, irritou-se o economista Márcio Mansur, 26 anos.

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Outros moradores se queixam do lixo espalhado e barulho nas ruas do bairro durante o evento, dos ônibus cheios e com passageiros fazendo bagunça nos arredores, entre outros problemas. Há quem não se incomode com a situação. O comerciante Carlos Alberto Pinto, 56, é um dos que veem a questão por outro prisma. “Não há empecilho algum. É um clima de animação”, contou Carlos, muito bem-humorado.

Ruim para moradores que buscam tranquilidade. Bom para o comércio no bairro. A maioria dos comerciantes comemorou a transferência do evento. “Recebemos a notícia com muita alegria, porque estamos bem abastecidos até domingo”, afirmou Eduardo de Souza, gerente da Pizzaria Estalos, na Rua Xavier da Silveira.

Opinião de peregrinos está dividida. Quem se hospeda na Zona Oeste reclama maisAlexandre Brum / Agência O Dia

O responsável pela Adega Cesare, na Rua Joaquim Nabuco, também gostou. “Como só recebemos mercadoria até sexta-feira, estamos abastecidos. A Jornada se estender em Copa até domingo foi muito bom para nós”, avaliou Francisco Araújo.

Adriano Laurentino, da Padaria Atlântica, na Rua Viveiros de Castro, está apreensivo. “Conversei com outros comerciantes da área sobre isso. Acho que irá faltar comida. A gente não estava preparado para quatro dias de Jornada”, acentuou.

GUARATIBA AMARGA FRUSTRAÇÃO E PREJUÍZOS

A mudança de local provocou frustração e prejuízos aos moradores e comerciantes da Zona Oeste, que se preparavam para vender produtos e prestar serviços aos peregrinos que lotariam o bairro neste fim de semana. Vários deles investiram em alimentos e em cômodos especialmente para hospedar peregrinos.

“Todo mundo já tinha se preparado para o grande evento há meses e foi pego de surpresa. O movimento já caiu, o comércio tá todo parado por aqui”, lamentou Leandro Costa, que trabalha como entregador em uma farmácia próximo à região.

Segundo o prefeito do Rio, Eduardo Paes, desde o início da semana as chuvas deixaram o local inviável para a realização dos eventos, podendo, inclusive, ser um risco à saúde dos participantes da Jornada.

Flávia Estefane tem tido problemas na Zona Oeste e não gostou da mudançaAlexandre Brum / Agência O Dia

Vários trabalhadores nem chegaram a entrar na área do Campus Fidei para prosseguir com os trabalhos de drenagem da água empoçada no local em que o público ficaria para assistir à missa celebrada pelo Papa Francisco no domingo. O Exército interditava a área para evitar a entrada de visitantes que queriam conhecer o palco construído.

Moradores da região passam dificuldades retratadas em filme uruguaio

Com a suspensão do evento no Campus Fidei, o drama dos moradores de Guaratiba se assemelha ao dos moradores da pequena cidade de Melo, no Uruguai, quando da visita do Papa João Paulo II, em 1988.

Os moradores de Melo vivem de pequenos serviços e viram na presença papal a oportunidade de ganhar um trocado a mais, pois foi alardeado que milhares de pessoas visitariam a cidade, próxima a fronteira do Brasil. Porém, apenas a comitiva do Papa e autoridades estiveram no distrito, deixando os moradores perplexos e endividados.

O drama dos uruguaios foi retratado no filme ‘O Banheiro do Papa’, uma produção franco-uruguaia-brasileira. Vencedora do festival de Gramado em 2008, a película mostra as dificuldades do personagem principal para construir um banheiro em sua casa, que seria usado pelos os turistas em troca de uns trocados. O filme mostra os moradores investindo em comidas típicas que, ao final, ficam espalhadas pelo chão, diante do olhar perdido dos uruguaios.



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