Dúvidas marcam o início da negociação sobre o programa atômico iraniano

EUA, Rússia, Reino Unido, China, França e Alemanha estão reunidos em Viena com o Irã para garantir caráter pacífico do programa nuclear do país

Por fernanda.magalhaes

Áustria - O Irã e as grandes potências mundiais começaram nesta terça-feira em Viena uma rodada de contatos para conseguir um acordo definitivo que garanta o caráter pacífico do programa atômico iraniano, em negociações marcadas pelo bom ambiente, mas sem calendários nem garantias sobre seu êxito.

A chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, em nome do Grupo 5+1 (G5+1, integrado por Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha), presidiu nesta terça-feira a primeira reunião negociadora com o ministro das Relações Exteriores iraniano, Mohamad Yavad Zarif.

O encontro começou com uma breve reunião plenária e continuou depois com encontros bilaterais, entre eles um que sentou na mesma mesa a subsecretária de Estado dos EUA para Assuntos Políticos, Wendy Sherman, e o vice-ministro das Relações Exteriores iraniano, Seyed Abbas Araqchi, segundo fontes americanas.

Estados Unidos e Irã não têm relações diplomáticas desde a queda do Xá Reza Pahlevi e a chamada "crise dos reféns" de 1979.

O presidente austríaco Heinz Fischer cumprimenta o Ministro de Relações Exteriores iraniano%2C Mohamad Javad Zarif%2C em VienaEFE

Após esses contatos, todos os países envolvidos voltaram a reunir-se em um novo encontro plenário.

As conversas se desenvolveram em "um bom ambiente", de acordo com o porta-voz de Ashton, Michael Mann, que rebaixou as expectativas ao afirmar que "seria ingênuo" pensar em que um acordo possa ser fechado em curto prazo e advertiu que o processo será "intenso e difícil", mas destacou a boa vontade que existe.

Mann detalhou que nos contatos em Viena, que devem durar até quinta-feira, se buscará simplesmente "criar um marco de trabalho para as negociações dos próximos meses".

Fontes diplomáticas americanas e iranianas também sublinharam que nestes primeiros compassos se centrarão mais nas formas dos encontros que em começar o assunto sobre a verdadeira disputa: quão grande e avançado deve ser o programa atômico do Irã.

Araqchi reconheceu perante os jornalistas que a reunião tinha começado bem e que o tom dos contato tinha sido construtivo.

Apesar do bom começo, as posições negociadoras se encontram muito afastadas, já que o G5+1 espera que Teerã limite muito seu programa nuclear, em troca de pôr fim às sanções que estrangulam a economia do país.

Limites que buscam um objetivo muito ambicioso, nas palavras de Mann, e que não é outro que o Irã demonstre "de forma inequívoca à comunidade internacional que tem um programa nuclear pacífico".

"Isso tem que estar provado e ser verificável. Se isso ocorrer, o Irã poderá ser tratado como qualquer país signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Esse é o objetivo do processo, mas, certamente, há muito trabalho pela frente", destacou.

O Irã, por sua parte, deixou claro que esse processo tem suas linhas vermelhas e que o país nem fechará instalações nem suspenderá seu programa atômico.

"Desmantelar o programa nuclear não está na agenda (de negociações)", sentenciou Araqchi.

Um dos grandes obstáculos para conseguir um acordo são as diferenças sobre o reator em construção de Arak, no oeste do Irã, e que pode gerar plutônio.

Fontes diplomáticas americanas deixaram claro em Viena que pretendem que o Irã transforme esse reator nuclear de água pesada em um de água leve, "mais próprio" de um programa nuclear civil.

Ativistas da aliança "Stop the bomb"(Parem a bomba%2C em tradução livre)protestam antes do início das negociações entre representantes das potências mundiais e do IrãEFE

Os reatores de "água leve" também geram eletricidade, mas não estão projetados para produzir plutônio, um material de uso duplo, civil e militar.

Além das divergências técnicas, o Irã lembrou que um problema de fundo é a desconfiança que, apesar da aproximação dos últimos meses, segue pairando sobre as relações entre Teerã e Washington.

O presidente do Parlamento iraniano, Ali Larijani, assegurou em entrevista publicada hoje pelo jornal francês "Le Figaro" que "ainda existe uma falta de confiança" entre os Estados Unidos e o Irã, mas considerou que "um acordo nuclear é possível".

As negociações de Viena para pactuar uma regra definitiva ao litígio nuclear ocorrem depois do acordo alcançado em novembro passado entre o Irã e o G5+1 e que entrou em vigor em 20 de janeiro.

Esse acordo preliminar estabelece que, durante seis meses, o Irã suspenda algumas atividades de seu programa atômico, como o enriquecimento de urânio acima de 5% de pureza, enquanto as grandes potências se propõem a congelar a aplicação de algumas sanções
econômicas.

A comunidade internacional teme que o Irã trate de desenvolver um programa nuclear militar sob o guarda-chuva de suas pesquisas civis, algo que Teerã sempre rejeitou.

A Agência Internacional de Energia Atômica foi incapaz em mais de dez anos de inspeções de garantir que os esforços atômicos iranianos são exclusivamente pacíficos.


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