Quem vai pagar a conta do transporte público?

Em debate do Observatório da Mobilidade, especialistas discutem como desatar o nó das tarifas que foram o estopim dos protestos que tomam as ruas desde junho

Por thiago.antunes

Rio - Não é à toa que a sabedoria popular afirma que ‘o que é bom custa caro’. No caso do transporte público, não seria diferente: é alto o custo para oferecer qualidade. A questão é que a sociedade acredita já pagar muito por um serviço que deixa a desejar. Já as empresas dizem que precisam cobrar mais só para manter o atual sistema. Para desatar esse nó, são diversas sugestões, como redução dos custos, por meio de corredores exclusivos de ônibus (BRS), desoneração tributária, ou subsídios. Mas todos concordam que a transparência nas contas é fundamental. Este é o resumo do quarto debate do Observatório da Mobilidade, realizado na quarta-feira pelo grupo EJESA (que edita o DIA, o Meia-Hora e o Brasil Econômico).

De acordo com o diretor da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), Marcos Bicalho, algumas empresas já começam a ter dificuldades após as reduções tarifárias de junho. “Os sintomas não aparecem em curto prazo, mas o primeiro sinal é que as companhias vão parar de investir em renovação da frota”, disse.

A professora de Engenharia de Transportes da UFRJ, Eva Vider, explica que a planilha de custo “é uma receita de bolo.” Ela leva em consideração valores do veículo, manutenção, combustível, mão de obra etc. Com isso, se sabe o preço do quilômetro rodado. Depois, é preciso definir quantos passageiros serão transportados por metro quadrado em cada quilômetro e se tem a tarifa técnica. A partir daí, segundo ela, os governos devem decidir, com transparência, quanto vão cobrar do usuário e se vão completar o valor com subsídios.

Nazareno Stanislau Affonso, do Movimento pela Democratização dos Transportes, no entanto, lembra da falta de técnicos qualificados nos governos. “Há municípios que se as empresas mandarem planilhas de custos, eles não sabem nem como verificar”.

Usuário só deve pagar 50% dos custos%2C pontuou Nazareno AfonsoCarlo Wrede / Agência O Dia

Usuário só deve pagar 50% dos custos - Nazareno Stanislau Affonso
Coordenador do Movimento de Democratização dos Transportes (MDT)

“Tributos são 32% da passagem e deveriam ser zero porque é um serviço essencial. Mais 20% da tarifa são para cobrir as gratuidades, como de idosos e estudantes. Quem paga esse custo é o usuário do transporte. Isso é injustiça social. Outra injustiça: o custo do transporte se eleva de 15% a 25% por causa dos engarrafamentos, formados por carros. Defendemos que o usuário pague até 50% do custo do transporte. O resto precisa ter outras fontes.”

Os governos estão despreparados%2C afirmou Eva ViderCarlo Wrede / Agência O Dia

Os governos estão despreparados - Eva Vider
Professsora de engenharia de transportes da Escola Politécnica da UFRJ

“Tarifa justa é a da lei, a da concessão (calculada pelas planilhas). Agora, se ela é viável ou não para população é outra história. Para isso existe o subsídio. É preciso que os governos decidam quem é que vai pagar esta conta e quanto disso será repassado para o usuário. A lei obriga, por exemplo, as prefeituras a divulgarem o peso das gratuidades nas tarifas, mas elas não dizem. Precisa ter mais transparência. Os governos estão muito despreparados.”

É difícil aceitar que se fale de caixa-preta%2C disse Marcos SantosCarlo Wrede / Agência O Dia


É difícil aceitar que se fale caixa-preta - Marcos Bicalho dos Santos
Diretor institucional da NTU

“É difícil aceitar que se fale em caixa-preta. Há fórmulas que podem ser verificadas. A diferença entre o custo e o preço da passagem, alguém tem de pagar. No Brasil, 85% dos passageiros são transportados por ônibus. É fundamental investir nessa infra-estrutura e racionalizar a rede. O BRS, por exemplo, aumenta a velocidade média e reduz o custo. Os governos também precisam definir a fonte de recursos para gratuidade. Com isso tudo, chegaremos a uma tarifa enxuta. Aí, para melhorar, só subsídio.”

Alexandre Rojas%3A Falta transparência nos preçosCarlo Wrede / Agência O Dia


O que falta é transparência nos preços - Alexandre Rojas
Professor de engenharia de transportes da Uerj

“Quando compra o cartão de múltiplas viagens, o usuário é um agente financiador das empresas. Isso não é medido na planilha de custo. Deveria ter desconto para quem paga antecipadamente. Outra coisa é que os governos fazem caridade com o chapéu alheio. O passageiro que paga passagem precisa saber que está custeando a ‘tarifa social’ (gratuidades). Isso tem que estar claro para todo mundo. A sociedade não sabe que está pagando a conta destas gratuidades. O que fata é transparência.”

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