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'O governo não ouviu as ruas', diz presidente da Fetranspor

Lélis Marcos Teixeira criticou duramente a política do governo federal para a mobilidade urbana

Por marlos.mendes

Rio - Representante das empresas de ônibus do Estado do Rio, Lélis Marcos Teixeira, criticou duramente a política do governo federal para a mobilidade urbana e espera que a população aceite se a prefeitura autorizar o reajuste das tarifas, congeladas há dois anos. O executivo, também vice-presidente para América Latina da União Internacional de Transporte Público, afirma que a cidade passa por uma “revolução” na qualidade do transporte coletivo, ainda não percebida pelos cariocas. Além de BRT de primeira classe para o aeroporto no primeiro trimestre de 2014, ele promete que painéis eletrônicos mostrarão horários dos ônibus em Copacabana já em janeiro.

O DIA: Qual a sua avaliação do transporte público do Rio em relação ao resto do mundo?

TEIXEIRA: Temos indicadores de recente pesquisa da União Internacional do Transporte Público (UITP)que mostram que o Rio está na média das grandes cidades mundiais. Ele não está como Hong Kong, que é a primeira em qualidade de transporte, nem como Viena, Zurich e Montreal, mas ele está em um patamar bem melhor do que as cidades da América Latina e cidades americanas que priorizam o automóvel.

'O governo não ouviu as ruas'%2C diz presidente da FetransporCarlos Moraes / Agência O Dia

E por que então a insatisfação com a mobilidade por aqui?

Estamos em um momento, ainda não percebido pela população, de grande revolução. Uma ruptura. Estamos saindo de um nível para irmos para um patamar muito mais elevado. Os grandes investimentos que estão sendo feitos no metrô, com a extensão até a Barra, as mudanças que estão acontecendo para a instalação do VLT, e na construção dos BRTs vão fazer com que a gente saia de um nível de transporte de massa de 18% para 64%. Mas não é só uma mudança na quantidade, é também na qualidade. (...) E não é a longo prazo, já tivemos uma pequena amostra do que é com o Transoeste. E, agora, no primeiro trimestre, veremos como será com o Transcarioca.

A UITP tem projeto para dobrar o transporte coletivo no mundo em 25 anos. Como está isso no Rio?

Aderimos a essa proposta há dois anos e entendemos que vamos fazer em menos tempo, já nas Olimpíadas. Esse é um compromisso meu, como como representante da UITP no Brasil, e não dos governos.

Como estimular o uso dos transportes coletivos e fazer com que as pessoas deixem o carro em casa?

Para atrair é preciso ter transporte de qualidade. (...) Fizemos um projeto em que os ônibus, com tarifa básica, que sairão do Aeroporto Internacional no BRT Transcarioca serão adaptados com locais para que o passageiro possa colocar a sua mala, com poltronas confortáveis de ônibus rodoviários, com segurança por meio de câmeras de vídeo e que garante ao passageiro a certeza do horário em que ele vai chegar, já que não há trânsito. Assim que for feita o Transbrasil, o mesmo conceito será adotado para o Centro e Aeroporto Santos Dumont. Aliás, para a Copa do Mundo, os corredores Transcarioca e Transoeste terão anúncios bilíngues nos auto-falantes, com a voz da “moça do aeroporto”, a Iris Lettieri. Até janeiro, vamos colocar dez painéis eletrônicos no BRS de Copacabana que vão informar ao usuário o tempo de chegada do ônibus, por meio de GPS.

Como resolver a questão das tarifas?

Essa questão transcende a área dos transportes. É uma discussão que a sociedade deve desenvolver e cada cidade deve pensar suas soluções. São Paulo, por exemplo, está seguindo o modelo europeu em que há mais de 20% de subsídio do governo. Aqui no Rio, pelo o que estamos vendo, é um outro modelo. (...) O que nos preocupa é que o governo federal, que tem uma quantidade elevada de impostos, poderia dar uma contribuição maior e não tem dado. Ele autorizou agora o aumento do diesel em 8% e da gasolina em 4%. Isto é, ele penaliza o usuário de transporte público. (...) Temos ainda 26% de tributos incidindo na cadeia de transportes e a maioria é federal. Achamos um absurdo o governo federal incentivar a aviação regional, transporte dito de luxo, e para o transporte coletivo não ter a mesma sensibilidade para incentivos. São incoerências. Não entendemos o governo não ter ouvido as vozes das ruas.

Há cobranças por transparência nos custos?

A tarifa é muito transparente hoje. Os dados são públicos, podem ser vistos no site da Fetranspor toda a planilha de cálculo. Nós não fornecemos os dados pra o aumento, eles são do IBGE, como o INPC, e pega-se a conjuntura econômica da FGV. O processo é transparente. O que tem é que cumprir os contratos de concessão, seja ele com o trem, ônibus, metrô ou barcas.

Só a tarifa é suficiente para custear um transporte público de qualidade?

Nos países mais capitalistas, como Nova Iorque, há subsídios. Eles entendem que o investimento é para a cidade, para torná-la viável economicamente, e não para o empresário. Mas, se não houver subsídio, é preciso que haja o reajuste da tarifa.

O senhor acha que a população aceitará o reajuste previsto para janeiro?

Se o governo aumentou o salário mínimo. Se você tem o reajuste do diesel, da gasolina e alimentos. Por que não deveria ter aumento das passagens? Acho que a população vai compreender sim. E, ainda mais aqui no Rio, onde estamos fazendo uma revolução nos transportes. 

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