Karla Rondon Prado: Dores de amor

Seja de quem for a decisão, a amargura deixa a boca sem gosto, sem sabor. Vem o período do luto como toda morte

Por bferreira

Rio - De repente começou a tocar: “Dai-me outra cor / Que não seja a do seu olhar / Dai-me outro amor / Que venha pra me perpetuar / Dai-me outra cor / Que não tenha o que eu quero enxergar...” E mais pra frente: “Não quero mais me desmentir / Eu não vou mais te procurar”. A poesia linda da música de Felipe S, do grupo pernambucano Mombojó, é de dez anos atrás e como sempre os relatos de dores de amor continuam atuais. E na sequência vieram letras e mais letras, antigas, recentes, em inglês e em português, lembrando que o sentimento é o mesmo, quando ele se quebra, quando se divide em dois.

Nós nunca seremos um só, já ensina a psicanálise, sempre seremos dois. Mas, com toda consciência que se possa ter sobre isso, acredita-se na imagem de dois corpos que se fundem, na visão de uma só pessoa, um só amor. Quando a realidade bate, a dor da perda é igual para todos.

De repente, o seu amor, aquele com quem conviveu por anos, vira um estranho. Está numa festa com alguém que você jamais pensou que tivesse intimidade. E ele realmente não tem. Com quem estará? Por quê? Como um desconhecido sabe mais sobre a pessoa que até ontem dormia comigo? Como pode respirar seu ar? Sua imaginação não para e é quase sempre muito mais criativa do que a realidade. Ao chegar em casa, ele sentirá um vazio tão vácuo quanto o seu.

Subitamente, nada mais tem graça. Nem alguém que você estava animadamente querendo conhecer. Você faz os mesmos caminhos, busca trajetos semelhantes, mas quando o destino não quer, vocês não mais se cruzam. Você sonha com os olhos castanhos de volta, e só consegue ver os azuis. Quem é esse que até outro dia te via acordar com sua pior cara e, por isso mesmo, te via tão lindo? A naturalidade dos que convivem em harmonia... e subitamente estão só lado a lado, tocando a vida, olhando para o infinito em busca da felicidade perdida. Acontece sempre.

Por que toda separação dói como se arrancassem um órgão seu? Seja de quem for a decisão, a amargura deixa a boca sem gosto, sem sabor. Vem o período do luto como toda morte. O difícil é querer e não poder ter. Querer por autoestima, querer por teimosia, querer por insistência, querer por amor. E se não te querem mais, como fazer? Quando a maturidade impõe partir para outra? Alguém me disse outro dia: ela se separou, ele namorou de novo e ela não quer namorar ninguém, disse que o seu amor é aquele, ela já sabe, ela já encontrou, ela não quer outro... Está convicta. Deve ser ainda mais triste quando essa certeza existe e o outro desiste.

E-mail: karlaprado@odia.com.br

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