Fernando Molica: O Papa que não tem jeito de Papa

Barrigudo, parece um tio interiorano que gosta de contar piadas, driblar dietas e de tomar uma cervejinha

Por bferreira

Rio - O mais interessante na figura de Francisco é que ele não tem menor cara de Papa, parece um ator mal escalado para o papel. Não exibe o ar missionário de João Paulo II nem a austeridade de Bento XVI. O primeiro tentava a conversão pelas benesses da fé, se angustiava ao ver que boa parte do mundo se divorciava da rigidez de dogmas católicos, parecia não entender como tanta gente abria mão de uma salvação incontestável.

Ex-responsável pela doutrina da fé, o intelectual Ratzinger articulou sua eleição com a certeza de que iria para o sacrifício em nome de um bem maior. Rígido, acenava com o inferno, não vacilava ao apontar o castigo que esperava as ovelhas desgarradas. Tanta firmeza, porém, deixava transparecer a nostalgia de suas bibliotecas e gabinetes de trabalho. Sabia que não era amado como seu antecessor; abatido pela idade e pelos sucessivos escândalos à sua volta, optou pelo gesto inesperado da renúncia e voltou para sua confortável clausura.

Ambos pareciam encarnar dois dos pilares da Igreja: o carismático e peregrino João Paulo lembrava São Paulo, que percorria o mundo em busca de novos fiéis. Bento era São Pedro, construtor da instituição que se fez igreja e poder. Bergoglio, que optou pelo nome e pelo estilo de São Francisco de Assis, quebrou esta dualidade. Barrigudo, parece um tio interiorano que gosta de contar piadas, driblar dietas e de tomar uma cervejinha de vez em quando (está mais para Lula, assim como Bento XVI exibia um certo jeito Dilma Rousseff de ser).

O despojamento de Francisco lhe garante popularidade neste início de pontificado. Mas, agora, ele passa a encarar um jogo mais difícil. Não são poucas as exigências que a Igreja faz para seus fiéis, em especial, para os jovens. Não será fácil convencê-los de que a virgindade deve ser mantida até o casamento, que o divórcio é inaceitável, que Deus rejeita a homossexualidade de seus filhos. Não será simples carimbar de pecado o desejo e o amor que brotam no ser humano. Isto, num momento em que o Brasil e o mundo debatem temas mais ligados à esfera e à ética públicas, como corrupção, espionagem e crise econômica. Francisco, com seu jeito de gente como a gente, tentará mostrar que esses descaminhos têm a ver com o comportamento privado de cada um, vale conferir seu poder de persuasão. No mais, como diz o escritor Carlos Heitor Cony, um ex-seminarista, ser católico não é pra quem quer, é pra quem pode.

Fernando Molica é jornalista e escritor | E-mail: fernando.molica@odia.com.br

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