Jaguar: Siné, precursor da baderna

Quando você conhece um cara de forma inusitada é porque é um cara inusitado

Por bferreira

Rio - Quando você conhece um cara de forma inusitada é porque é um cara inusitado. Isso me aconteceu quando o cartunista francês teve que fugir para o Brasil depois do quebra-quebra de maio de 68, a Chienlit, para não ser preso. Ele foi um dos incentivadores da revolta dos estudantes, através do seu jornal ‘L’enragé’ (O Enraivecido), que durou só 12 números. Sua bagagem: maleta com duas mudas de roupa e um paralelepípedo de Paris. Com uma diferença de 45 anos, as mesmas armas, lá e cá, pedras das ruas contra a polícia (já os alvos eram bastante diferentes: De Gaulle e Cabral).

Um amigo comum me avisou da chegada; fui esperá-lo no aeroporto com uma tabuleta com o nome dele. Mais parecia um pugilista que cartunista: atarracado e com cara de poucos amigos. E pelo jeito não fazia a menor questão de fazer amigos : apresentei-o ao Millôr, Ziraldo e Ivan Lessa. Todos o acharam detestável. Levei-o para o meu apê em Copa. “Posso chamar uma amiga que mora em São Paulo?”, perguntou. Catherine, com quem está até hoje, chegou no dia seguinte. Dormiam na minha cama, e eu, no sofá da sala. Siné me deu uma lista de coisas de que precisava: material de desenho, scotch e cigarros Gaulloises, que fumava sem parar. Caneta e tinta nanquim ,eu já tinha. Comprei um Red Label e, como não achei os malditos Gaulloises, comprei cigarrilhas Talvis (quando o casal foi embora, tive que mandar desinfetar o ambiente). “Obrigado pelo uísque, mas cadê o scotch?”, disse.

Tinha esquecido que os franceses chamam durex de scotch. Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, topou editar um livro dele: ‘Siné & CIA’. Fiz uma pesquisa de todos as palavras que tinham CIA . Por exemplo: pestilência ( Siné tapando o nariz por causa da bandeira americana) , insolência ( Siné escrevendo ‘Go Home’ nas costas do Tio Sam), etc. Consegui organizar mostra dos desenhos no saguão do saudoso Teatro Santa Rosa, em Ipanema. A peça de destaque era o tal paralelepípedo parisiense, em cima de um pedestal. No dia seguinte, a polícia — estávamos em plena ditadura — fechou a exposição e apreendeu a pedra. Tive que mandar Siné se esconder em Mangaratiba. Seu álbum ‘Siné —60 anos de desenho’ reproduz alguns do livro que fizemos, sem citar meu nome. Consta que ainda está vivo, em algum lugar da Córsega.

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