Leda Nagle: Eterno improviso...

Mesmo que você não circule nos trens da cidade, já deve ter visto na TV as imagens do povo espremido, disputando lugar até para colocar as mãos

Por adriano.araujo , adriano.araujo

Rio - Será que consigo escrever e mandar esta coluna hoje? Será que consigo responder a meus e-mails, ou acompanhar o que acontece no Brasil e no mundo pela internet? Dormi e acordei com a sensação de que moro numa cidade do interior, perdida no tempo. Ontem não pude ver a novela das nove nem o futebol. E, agora, vocês vão saber o motivo e, com certeza, vão ficar perplexos. Como eu.

Tudo isto aconteceu porque uma Kombi pegou fogo no Túnel Zuzu Angel, em São Conrado. E daí, perguntarão os mais impacientes. E daí que a Net passa seus cabos por dentro do túnel? E daí que este fato apenas evidencia o quanto vivemos de maneira improvisada nesta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro? De jeitinho em jeitinho, seguimos em frente, fingindo que somos modernos, bem administrados e eficientes. Tudo falso. A gente vive mesmo numa imensa gambiarra. Nem vou falar do trânsito por conta do tal incêndio. Ficou péssimo, claro. Sempre fica. Piora por qualquer coisinha à toa, imagina no caso de um incêndio dentro do túnel.

O improviso é geral. Mesmo que você não circule nos trens da cidade, já deve ter visto na TV as imagens do povo espremido, disputando lugar até para colocar as mãos. Se usa o Metrô, sabe perfeitamente que ele não dá vazão, chega e parte lotado, quase amassando calcanhares que disputam espaço com as portas, perigosamente. Quem usa as barcas também vive num constante sobressalto. De carro também não é fácil. A cidade dorme e acorda engarrafada, com todo mundo perdendo tempo, se estressando, improvisando. Onde estão os técnicos estudiosos da vida das cidades? Alguém está repensando nossos problemas do dia a dia, em busca de melhores condições de vida? Duvido. E quando os gênios improvisados pensam é mais perigoso ainda. A última novidade em São Conrado, onde eu vivo, é a construção de dois conjuntos habitacionais para os moradores da Rocinha. Um deles em cima da estação do Metrô. O outro, na boca do Túnel Zuzu Angel.

Além de criar uma megafavela, ou megacomunidade, juntando Rocinha com a favela da Matinha e com o Vidigal, vão desmatar uma área de preservação e expor ainda mais os moradores aos perigos da autoestrada. A boa notícia é que, ao que parece, o Metrô não gostou da ideia de construírem prédios em cima da sua estação. E esta parte terá que ser revista. Mas a “rodoviária” que criaram ali perto do Hotel Nacional continua, reunindo linhas improvisadas e tornando o espaço público ainda mais degradado. Só pra lembrar: cadê o saneamento básico da Rocinha, sempre prometido e nunca executado? Será que não fazem porque saneamento não dá voto? Será?

E-mail: comcerteza@odia.com.br

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