Por tamyres.matos

Rio - Nem morto eu perderia a celebração do dia da consciência negra no ‘Esquenta’, de minha Deusa Casé. Era sopa no mel, e de Mano Brown vem o tiro de misericórdia: “Já fomos carne, agora queremos ser navalha”. Ui, fortíssimo, pois verdadeiríssimo: os negros se impuseram pela força de sua cultura, e os brancos são obrigados a partilhar espaço com eles se quiserem ser antenados. Mas depois ele deu uma derrapada, dizendo para Regina que o Rap pode se profissionalizar, mas não envelhecer. Ele queria dizer que não pode encaretar, ficar passado, mas, para não envelhecer, só morrendo. Regra da vida.

Aliás, envelhecer é belíssimo espetáculo da natureza, estão aí jazz, rock e samba, velhinhos e poderosos. Com certeza novos ritmos virão e, mesmo vivido, o Rap não pode é perder força contestatória. Como Ruth de Souza e Chica Xavier, por exemplo. Negritude, velho e novo, fui parar em pensamentos no meu amado amigo Paulão, presidente eterno em meu coração do Centro dos Direitos Negros da Secretaria Estadual de Igualdade Racial, falecido de forma estúpida recentemente. O negão, vivido e fortíssimo, saiu para seu cooper (palavra cafona, melhor caminhada) no Maracanã e, ao atravessar a rua, foi atropelado. Assim, do nada, porque para morrer basta estar vivo. Aproveitou, riu, brincou e combateu o racismo e bradou sempre “avante igualdade”.

Este será nosso primeiro Dia de Zumbi sem Paulão no palco da Presidente Vargas, e peço licença a meus companheiros para sair de cena, me recolher em minha tristeza de ter perdido um irmão. Dinaléia, Maria Moura, Bruno Ribas, amo vocês todos, mas me recolho em saudades. Volto ano que vem. Mas fui ao Back2Black, o maravilhoso festival que tinha que se chamar De Volta ao Negro (só porque acho cafona estes nomes em inglês), e que este ano se instalou nas monumentais cercanias de concreto da Cidade das Artes. Imponente, diverso, todo trabalhado nas estampas do povo Ndebele, da África do Sul, um escândalo de bem produzido o evento.

Comento a primeira noite, que fui: recebido por Bel, o mais tudo que tudo dos promoters, palavra igualmente cafona (mas porteiro e recepcionista também não dá)... Deixa ver, batizo-o de auxílio-entrada-luxuosa, pronto! Vi Milton Nascimento, no palco principal, de chorar de bom.

A voz, o repertório, a presença sacerdotal, tudo inesquecível e de fino trato. Depois, Criolo, arrasando em sua nova versão para Cálice, de Chico Buarque, sem falar que ele é um tesão. E encerrando com o filho de Fela Kuti, criador do AfroBeat, o herdeiro Femi Kuti, com a força do povo nigeriano arrasando. Viva nossos semelhantes negros! E vamos envelhecer sem perder o borogodó.

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