João Batista Damasceno: Helicópteros: pó-pó-pó e bum!

Helicópteros não têm causado maiores baixas no campo político graças à condescendência de setores da mídia

Por O Dia

Rio - Helicópteros não têm causado maiores baixas no campo político graças à condescendência de setores da mídia. Em 2011, a queda de um deles na Bahia expôs as relações entre coisa pública e vida privada e entre políticos e empreiteiros. Os danos não foram maiores porque a ‘CPI do Cachoeira’ foi por água abaixo. Neste ano, no Rio, o uso de helicóptero oficial para transporte de um cachorro voltou a ser tema do noticiário por alguns dias. A recente apreensão de 445 quilos de cocaína a bordo de um helicóptero pertencente a um deputado mineiro, filho de um senador do mesmo estado, volta a expor a seletividade das coberturas jornalísticas. O helicóptero do deputado, pilotado por seu assessor, abastecido com verba de gabinete, saiu de São Paulo, pousou na fazenda da família do parlamentar em Minas Gerais e rumou para o Espírito Santo, onde a droga foi apreendida. O piloto responsabiliza o copiloto e o delegado já adianta: “Até agora não há prova de envolvimento da família do deputado ou da empresa dele com o tráfico de cocaína”.

Fotos dos proprietários da aeronave com governadores da oposição circulam pelas mídias sociais. Mas, a mídia tradicional – responsavelmente – não abordou a relação entre eles. Este é um comportamento desejável, tanto da polícia quanto da mídia. Não há prova, até agora, de que os proprietários do helicóptero sejam os donos da droga e, portanto, há de viger o princípio da inocência. Igualmente, as fotos com os governadores não expressam relação com o ilícito. O mesmo princípio deve valer para jovens negros e pobres das favelas ou da periferia e para políticos de outros partidos. Na década de 90, foto de Leonel Brizola em campanha eleitoral numa favela, foi amplamente divulgada, pois se dizia que um eleitor que o cumprimentara publicamente – no meio de dezenas de outros — era um traficante. Julgamentos justos somente se fazem se partirem dos princípios da inocência ou da dúvida ante a acusação.

Doutor em Ciência Política pela UFF e juiz de Direito. Membro da Associação Juízes para a Democracia

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