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Karla Rondon Prado: A hora do presente

Um mau presente acaba com a gente. É preferível nunca ter aberto, visto, entendido o quão despresente é aquilo

Por bferreira

Rio - Presentear é bom. Antigamente, lembro-me que meninos ganhavam meias ou aquelas cuecas de saco de batata coloridas. Nem sei se existem ainda, mas posso ver a cena novamente e a cara de decepção, espantada, do meu melhor amigo abrindo o presente de Natal que ganhou da avó. Tínhamos uns 10 anos e fiquei com tanta pena dele que tentei animá-lo quando ele abriu o embrulho: “A azul é bonita, é aquele azul que só vem na caixa grande de lápis de cor”. Ele esperava um Genius.

Um mau presente acaba com a gente. É preferível nunca ter aberto, visto, entendido o quão despresente é aquilo. Não houve dedicação, percebe-se o quanto o oponente (podemos chamar assim) não tem nenhum interesse por nós, não faz questão de saber quem somos, quer só se livrar da obrigação da data. Das coisas que odiei: de um ex-namorado, uma blusa frente-única (nunca usei modelo semelhante, não combina com meu corpo); outra com zíperes e estampa gigante de onça (incluindo a cara do bicho rosnando em close); um enfeite de uma boneca rosa de porcelana (por eu apreciar antiguidades, como peças de Murano, a pessoa achou por bem me dar aquilo); DVDs de artistas que não me interessam, desses em promoção. Amei: uma caixa de bombons de cereja; quando meu pai me deu um violão; uma caixinha de música em formato de coração; outra com perfume e sabonetes (na adolescência, quando só ganhamos presentes bem insignificantes e baratinhos); um DVD com o meu filme preferido; um saco de balas de leite da Kopenhagen.

Pior é quando você ganha um presente gigante que não tem onde enfiar. E se a pessoa for na sua casa e perguntar por ele? Quem errou? Você, que jogou o mimo fora, ou ela, que não foi atenciosa? São aqueles presentes bem chamativos, de quem quer marcar território, tipo… um São Jorge gigante cheio de espelhos quadradinhos enfeitando o dragão; um duende com capuz vermelho feito de Durepox, para você deixar ao lado do seu vaso chinês verdadeiro; uma churrasqueira portátil com pés, pois quem te deu queria incentivar seu lado aventureiro (desprezando seu ódio por camping e trauma de acampamentos).

Quando viajo, trago presentes para todos. Todo mundo que eu vejo na viagem. Ou seja, posso esquecer um souvenir para uma pessoa bem íntima se não senti a presença dela lá comigo, se por um minuto não desejei que ela compartilhasse comigo aqueles momentos únicos. Presente tem que ter a presença da pessoa.

Neste Natal, pense nisso. Ou não dê nada, não.

E-mail: karlaprado@odia.com.br

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