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Fernando Molica: O bêbado e os policiais

Será que a PM gastou todo o estoque de spray nas manifestações do ano passado?

Por tamyres.matos

Rio - Aquela desastrada atuação de PMs na noite do Réveillon em Copacabana permite reeditar uma velha piada. Afinal, quantos policiais militares são necessários para conter um bêbado ciumento e desarmado? Pelo resultado da ação, seria preciso mobilizar mais do que cinco homens. Os tantos que estiveram por lá conseguiram transformar uma briga de marido e mulher — violenta, que precisava ser interrompida —, numa confusão que terminou com 12 pessoas feridas a bala. Transtornado, o agressor pegou a arma de um policial e saiu disparando tiros a esmo.

Claro que o tumulto só existiu por conta do desvairio do sujeito. Mas, como não dá para prever esse tipo de episódio — vá lá entender quem acha ter sido vítima de traição —, é o caso de o Comando da PM avaliar bem o ocorrido e tentar evitar a repetição de tantos erros. Pra começar, vale repetir que o Réveillon de Copacabana, apesar de sua insensata grandiosidade, é tradicionalmente pacífico. Há previsíveis furtos, mas raríssimos episódios envolvendo armas de fogo. Até bandidos devem achar que não daria muito certo sair gritando “Perdeu!” ou o ainda mais velho “Mãos ao alto!” no meio daquela multidão. O histórico do evento recomendaria, portanto, uma ênfase no uso de armas não letais.

Armas de fogo sempre representam risco, só devem ser portadas e usadas em último caso. Por que todos os PMs envolvidos na segurança do Réveillon tinham que estar com revólveres ou pistolas? São armas que jamais deveriam ser usadas no meio a tanta gente, mais de um milhão de pessoas. O ciumento só pegou a pistola do policial porque este estava armado. Um spray de pimenta seria útil para dominar o agressor e resolver a confusão. Será que a PM gastou todo o estoque de spray nas manifestações do ano passado?

O problema é mais grave. Como já disseram vários estudiosos e o próprio secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, a PM foi, ao longo das últimas décadas, adestrada não para proteger a sociedade, mas para enfrentar boa parte dela. A escalada de uma violência muitas vezes estimulada por integrantes das próprias polícias ajudou a reforçar a lógica bélica das corporações, contaminadas com a ideia de uma batalha em cada esquina. Assim, se mostram despreparadas para enfrentar manifestantes — alternaram exagero com omissão — e para resolver uma briga de marido e mulher. O caso de Copacabana reforça que, para o bem de todos, inclusive dos policiais, há muito para ser mudado. É a velha história: tem horas em que não é preciso força, mas jeito.

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