Editorial: Reações tímidas à crise da espionagem

Barack Obama fez ontem a declaração mais contundente sobre o escândalo desde que a vigilância indiscriminada veio à tona

Por thiago.antunes

Rio - Barack Obama fez ontem a declaração mais contundente sobre o escândalo da espionagem desde que a vigilância indiscriminada veio à tona. Prometeu mudanças, mas ficou muito aquém do que o mundo esperava. Continua claro que os Estados Unidos não vão abrir mão do papel de bedel do mundo, o que, dentro da mentalidade ianque, lhes confere o poder de escrutinar nações. Talvez fosse melhor para Obama, que se vê num acentuado declínio, ficar calado.

Julian Asssange, figura central do WikiLeaks, foi taxativo: “É vergonhoso que um chefe de Estado fale dessa maneira durante 45 minutos sem dizer praticamente nada.” De fato, o discurso do presidente americano pareceu mais tentar panos quentes no estrago da espionagem do que efetivamente contê-la.

Uma frase de Obama foi especialmente constrangedora: “Os líderes dos países aliados e amigos mais próximos merecem saber que, se eu quiser ter conhecimento do que pensam sobre determinado assunto, pegarei o telefone e ligarei para eles em vez de recorrer ao monitoramento.” É praticamente um mea-culpa, mas pessimamente abordado, pois transpira prepotência.

De positivo, o presidente admitiu que o aparato montado pela NSA pode devassar a vida de qualquer um se não existirem salvaguardas. Também se destacou o pedido para deixar de monitorar ligações telefônicas.

É compreensível haver vigilância em diferentes esferas numa época em que inimigos são líquidos e o terror pode brotar do chão e do nada. Também é legítimo que os Estados Unidos, como nação mais potente do mundo, observem o que se passa no mundo. Mas nada justifica a devassa operada nos porões da NSA, exposta graças à coragem de Edward Snowden. Ele, infelizmente, ainda é visto como um maldito, um inimigo público que desgraçou a segurança do planeta — mas que deveria ser eternizado como guardião das liberdades individuais.

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