Rio - País tropical, eu sei, mas o que vem acontecendo com o clima já passa do termômetro. Febre alta no Rio de Janeiro, ventiladores com hélices eólicas sopram na Avenida Brasil, calda de asfalto na sardinhada viagem do coleito Vesúvio. Já morei em Bangu, pioneiro nas borrifadas urbanas, uma experiência em carteira, posso garantir, tem urubu usando asa pra se abanar.
Um sintoma natural, além da sudorese, é o mau humor. A testa poreja, desce ácida nos olhos já cerrados do sol nascente e poente, simultâneos, onipresente. O elevador demora, o porteiro te ignora, um enfastiado “bom dia” soa do jornaleiro camuflado no anúncio da ventarola.
O astro-rei tem as pernas de um Moisés, um Júnior Baiano marcando em cima, zagueiros que não perdoavam nem a sombra adversária. Daí, o humor. Dia perdido, antes mesmo de abrir a tarde, dois tomates nas bochechas de vela, resta a clássica solução carioca, o botequim.
Uma gelada. Parodiando o loucutor do estádio, sai o pingado, entra a tulipa. O português, aquele que não ri nem de Mega-Sena premiada, já cospe grosso pro infeliz que pediu um varejo e o fósforo emprestado. Baiano, meu amigo de birosca, lembra o dia em que a empregada, preparando uma sopa pro galego, fala gentilmente:
— Põe no prato?
— Não, ô! Joga no chão e traz varrendo!
E não ficou nisso: mulher feia é igual a ventania, só serve pra quebra-galho!
O homem não ri. Puxo um assunto — que calor, hein? Nada.
A cerveja chega à revelia da marca. — É a única gelada, quer ou não?
Tem voz de dialeto.
Barba por fazer, o pano de prato fazendo as honras de um lenço pessoal, desce meia porta do bar pra amenizar o maçarico apontado pras três mesas do salão. Arruda seca no pequeno altar de São Jorge, a vida passa sem camisa no vestiário desses dias. O verão não tem data marcada. Outono que espere. Como escreveu um intelectual polonês, “vivemos o fim do futuro”. Enquanto isso, artefatos e a árida Praça Seca esquentam ainda mais o Rio 50 graus.