Por bferreira

Rio - Tento me equilibrar na caçamba. Como diria Jorge Ben Jor: “Cadê, Tereza?” Busco a corda da salvação do Rio de Janeiro na tábua de um navio à deriva.

Invisíveis tapumes, antes, a roupa do rei nu, agora despem o ópio da ilusão. Frase esdrúxula, trato de explicar. A natureza da cidade, lagoa, mar e montanhas, não oxigena mais a tipoia dessa miséria cotidiana. Vivemos na esteira de um crime da mala diário.

Acho, no fundo, que aplaudimos o pôr do sol no Dois Irmãos agradecendo o dia sobrevivido. O chope anda baldeado. Sem ar no peito e nos trens da Central, esquina dos pivetes descamisados, vamos ao abate na tortura da mão invertida da Avenida Rio Branco. Paciência, diz o anúncio luminoso. O transtorno é bipolar. Uma hora, feliz com o samba, os gols na moderna arena, depois, uma sensação insubstituível de gol contra no minuto final. Aos tropeços seguimos em topadas, de mãos dadas pela calçada obstruída.

Não tenho palpites pra centena e nem pro milhar, meu nobre Wilson Batista. A memória encontra o pedreiro Waldemar “que é mestre no ofício, constrói um edifício e depois não pode entrar”.

Estamos em obras. Meu pacto com a cidade é uma certidão de casamento. Não tenho amantes. Nem pensar em outra paisagem. A minha Caloi da infância virou artefato de gangue. O Arpoador das fantasias sensuais, hoje aterrado em praça de guerra social, hiberna num limo sem mariscos, mas fatal aos descalços. Nem chover no verão pra desviar de tragédia, conseguimos. Estamos, sim, ferida aberta, abordoados de Amarildos, Santiagos e Cláudias, poeira na garganta, sufocado orgulho de ser carioca.

O otimista escancara, que, assim, a vida anda uma bosta. Meu receio é que a bosta não dê pra todo mundo. O riso forçado do Carnaval está na quaresma.

Dos lugares que vivi, já me despedi da Praça Seca, da Vila Aliança. O defesa civil dos meus dias pôs em risco o calçadão de Copacabana. Evito as cutias do Campo de Santana, passo distante do Vavá, na Clarimundo de Melo, não ando de ônibus no Aterro do Flamengo, muito menos na ponte pra Niterói. Ilhado, de pouco acho graça, feito a Taça Guanabara.

No fundo do poço dos leões famintos, um pé de Esperança. Quem sabe, de joelhos, o bem aventurado seja consolado por uma luz que nunca o abandonou. O facho que hoje, escondido num canteiro de vigas, reflita do aço da impunidade um pouco de calor para a próxima estação.

Você pode gostar