Por bferreira

Rio -Surpresa. Espanto. Horror. A pesquisa do Ipea sobre estupro chocou. Como assim a grande maioria dos brasileiros acha que as mulheres facilitam o estupro por conta de roupas chamadas inadequadas? Quase 60% das pessoas ouvidas acham isto? É o que mostra a pesquisa. Que mostra também, de alguma forma, que aos homens não é dado o direito nem o dever moral de não saber ou não poder controlar seus impulsos ou instintos. De novo, como assim?

Como o Brasil ainda precisa evoluir! E os brasileiros, homens e mulheres, precisam aprender a se colocar melhor do ponto de vista civilizatório. Porque estas mesmas pessoas ouvidas acham que homem que bate em mulher deve ser preso. Não é contraditório demais? É. Mas podia ser pior. Podiam ainda achar que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, apesar dos tempos e até da Lei Maria da Penha. Desde sempre e no momento atual as mulheres trabalhadoras que usam o transporte público, vestidas com roupas simples, neste país tropical reclamam das chamadas “encoxadas” nos trens e ônibus nas idas e vindas do trabalho. Alguns homens ainda insistem em desrespeitar as regras que estabelecem vagões femininos no transporte ferroviário.

Domingo passado num restaurante chique da Rua Dias Ferreira, no Leblon, tentei ir ao banheiro por duas vezes e encontrei a porta fechada, por muito tempo. Como o restaurante estava praticamente vazio, achei que poderia existir uma chave especial e pedi ao garçom para me arranjar uma cópia. Ele também achou estranho, foi comigo até a porta e, juntos, perplexos, demos de cara com o chefe de cozinha saindo do banheiro feminino. Diante do constrangimento do garçom e do gerente, o cozinheiro apenas disse: “Eu estava apertado e o banheiro masculino estava ocupado.” Como assim? Por estas e outras é que fico sem ter certeza se estas constatações do Ipea são assim tão surpreendentes, considerando os desrespeitos do dia a dia.

Nas oficinas mecânicas, na contratação de uma obra, no exercício do trabalho de síndica, só para citar alguns casos, sempre tem um maldito machista disposto a desrespeitar e a desqualificar a mulher, com a mesma e antiga ofensa: isto é falta de homem. Também não afirmaria que só os homens são machistas. Há milhares de mulheres que desdenham das outras mulheres quando as encontram em posições de chefia ou profissões ditas masculinas. Há mais de 50 anos era comum um ditado popular que dizia “prendam suas éguas que os cavalos andam soltos.” Pelo visto, só a frase caiu em desuso, mas nosso caminho na busca da igualdade e do respeito ainda será longo. Ainda vai levar um tempo.

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