Carlos Alberto Rabaça: Campanha contra o tráfico

O tráfico virou uma ação sombria que vai encobrindo a última luminosidade da existência terrena

Por thiago.antunes

Rio - A Campanha da Fraternidade deste ano, lançada pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), convoca à luta contra os diversos tipos de tráfico: o trabalho forçado, a exploração sexual, a extração de órgãos e a adoção irregular de crianças. A campanha, em âmbito nacional, acontece em todas as comunidades cristãs católicas e ecumênicas. Seu objetivo é conscientizar as pessoas em relação a problemas concretos que envolvem a sociedade brasileira.

O tráfico transformou-se numa ação sombria que vai encobrindo a última luminosidade da existência terrena. A intenção do traficante é reduzir as pessoas a máquinas funcionais. A Igreja assume a defesa dos direitos humanos e se associa em solidariedade com todos os que defendem a justiça e a paz. Uma das numerosas declarações do magistério sobre esse assunto, de especial importância, foi proferida pelo Papa João Paulo II, em 20 de outubro de 1978.

“A Santa Sé age nessa área com respeito à vida e dignidade das pessoas, a busca mútua do bem comum, o espírito de reconciliação e uma abertura aos valores espirituais, exigências fundamentais para uma vida harmoniosa na sociedade.”

O Papa Francisco, em carta de apoio à campanha, define seu objetivo. “Espero que os cristãos e as pessoas de boa vontade se comprometam a lutar para que nenhum homem, mulher, jovem ou criança seja vítima do tráfico humano. Não é possível ficar impassível, sabendo que existem seres humanos tratados como mercadorias.”

Francisco pediu que os fiéis façam exame de consciência, ao encerrar a mensagem. “Quantas vezes se tolera que um ser humano seja considerado um objeto exposto para ser vendido como um produto? Queridos brasileiros, tenhamos a certeza de um princípio: eu só ofendo a dignidade humana do outro porque antes vendi a minha.” 

Os negociadores desses atos indecorosos são agentes conscientes, e deve haver motivos supervenientes que os levam a agir dessa forma com outras pessoas. Entendo, também, que a prática do tráfico é uma indicação dos valores herdados que influenciam uma sociedade ou nação. O que acontece no Brasil precisa ser visto à luz da sua longa história, desde a colonização.

A cruel instituição da escravidão que somente foi abolida em 1888 e a forma violenta como o Brasil foi explorado, através dos séculos, deixou suas marcas na mentalidade de muitos, especialmente das classes dominantes. O tráfico, como a tortura, é o crime mais cruel e bárbaro contra a pessoa humana.

Carlos Rabaça é sociólogo e professor. Fernando Molica está de férias

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