Jaguar: Errata de memória

Vi na Globo: no momento em que uma senhora era entrevistada, um pivete - zapt! - arrancou seu colar e saiu correndo

Por bferreira

Rio - O grande problema de uma biografia, autorizada ou não, é ser verídica. Outro dia escrevi que fui o autor do primeiro protesto na imprensa contra o golpe militar; seria a charge da ilustração — o gorila pisoteando uma máquina de escrever (a rapaziada que navega na internet nuca viu tal objeto). Mintchura, como diria Neuzinha Brizola. O primeiro a estrilar contra a ditadura foi o Cony, que publicou sua famosa crônica do 2 de abril de 64, segundo me corrigiu uma senhora que encontrei no Leblon. Outra mancada foi ter escrito que cheguei à avançada idade de quatro décadas e dois anos, ou seja, 42. Pode ser fim de carreira para jogador de futebol, mas para jornalista é a idade ideal. Na verdade quis dizer oito décadas, e não quatro. E a charge saiu, sim, mas no dia 3 de abril (ou teria sido 2?), numa precária e histórica edição de apenas duas páginas.

O fato histórico é que, logo depois do golpe, uma turma de lacerdistas (partidários de Carlos Lacerda, os black blocs da época) invadiu e depredou as instalações da ‘Última Hora’, que ficava na Rua Sotero dos Reis, perto da Praça da Bandeira. Resumo da ópera: Samuel Wainer, dono do jornal, me demitiu. Foi o prêmio pelo meu destemor (ou porra-louquice , o que vem a dar no mesmo). E vamos dar o assunto por encerrado. Como você já deve ter percebido, coisas que dependem da memória não são meu forte. Pensei num título para a minha biografia: ‘É Tudo Mentira’, aproveitando a ideia de Orson Welles (‘É Tudo Verdade’). Se alguém quiser escrevê-la, não vai ter problema: acreditarei em tudo que contar.

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Vi na Globo: no momento em que uma senhora era entrevistada, um pivete — zapt! — arrancou seu colar e saiu correndo. Se não foi uma malandragem brilhante do repórter, é o retrato perfeito do estado a que chegamos. Estatisticamente sou uma aberração: ao longo (bota longo nisso) da minha vida, só fui assaltado duas vezes. Espero que não tenham sobrado para você os assaltos que me faltaram. A fronteira entre o crível e o incrível, a verdade e a mentira, é nada. Nem Corinthians, nem Palmeiras, nem Santos, nem São Paulo. Há dez anos quem acreditaria que um dia o Ituano poderia ganhar o Paulista? E quase a decisão foi entre o Ituano e o Penapolense (você sabe onde é Penápolis? Eu não). Quando disserem que fulano é uma lenda viva, acredite. Está no dicionário: lenda é sinônimo de mentira.

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