Rio - E lá vamos nós, depois desse longo feriado de Semana Santa, Tiradentes e São Jorge, embarcar em mais uma semana que termina em feriado. Ao contrário da anterior, nesta, o único aspecto de religiosidade advém do fato de no calendário religioso se comemorar a memória de São José, o padroeiro dos trabalhadores, que foi marceneiro, como conta a Bíblia.
A conquista desse dia de descanso foi construída por mortes e lutas ocasionadas pelo abuso dos patrões em relação às muitas horas da jornada de trabalho. A confusão começou em Chicago, em 1886. O expediente era de 16 horas, lutava-se por oito horas, a metade do tempo. A França, três anos depois, adere à luta e escolhe o 1º de maio, propondo anualmente uma manifestação nessa data em homenagem às lutas sindicais de Chicago. Vale lembrar que todas essas manifestações foram pontuadas por embates entre trabalhadores e a polícia, sempre tentando inibir as reivindicações.
Seguindo a história dessa conquista, a Rússia, em 1920, acolhe o mesmo dia como feriado. Nessa sequência, Portugal, depois da revolução de 25 de abril de 1974, comemora o dia. São os trabalhadores, nós, os velhos guerreiros, nessa história e data.
Mas e nós, brasileiros, como entramos nessa história? Desde 1895 se comemora a data por aqui e, no ano de 1917, os emigrantes, trabalhadores revoltados, produziram uma greve geral. Com o fortalecimento da classe operária, oito anos depois, no governo de Artur Bernardes, o 1º de maio passa a ser decretado como feriado.
É na Era Vargas, no período de 1930 a 1945, que nosso presidente, com toda sua habilidade, vai descaracterizando a efeméride, pontuada por sofrimentos e protestos, e a transforma em data comemorativa. Dia de festa do trabalhador, sofrimento dando lugar a alegria. Esperto nosso presidente. Não? Com certeza, e foi muito além, quando no dia 1º de maio de 1943 divulgou a Consolidação das Leis Trabalhistas, a conhecida CLT.
Pensemos em todos os protestos e mortes ocorridas: o dia tem 24 horas, dessas, 16 eram ocupadas no trabalho. Restavam oito para dormir e viver fora do ambiente laborativo, ou seja, não se vivia, se trabalhava.
A qualidade de vida era terrível, e o trabalho, referido como o ‘lugar dos infernos’. Trabalhadores mais pareciam presidiários, e seus direitos não existiam.
O trabalho, ao longo da sua história, já foi relacionado e usado como castigo e saúde. Quem já não disse ou escutou que alguém que estava muito desocupado fazendo bobagem precisava mesmo é trabalhar? Ou alguém frequentemente com questões mentais, deprimido, deveria arrumar uma ocupação? Até na sabedoria popular diz o ditado: “Mente vazia, oficina do diabo!” Fazer o quê? Nem sempre é verdade, por vezes, até é!
Fernando Scarpa é psicanalista