Vitor Lira: A Copa e a mais bela vista

O Pico do Santa Marta passou de lugar marginalizado a uma das áreas mais valorizadas do município

Por felipe.martins , felipe.martins

Rio - Aqui a vista é de 180 graus. Urca, Leme, Copacabana, Arpoador, Ipanema, Leblon, Gávea e Corcovado. Estamos pertinho do Cristo e bem abaixo de um dos pontos turísticos mais visitados do Rio. O Pico do Santa Marta passou de lugar marginalizado a uma das áreas mais valorizadas do município, alvo da especulação imobiliária, fenômeno que ficou ainda mais forte com a chegada da Copa. Por isso, querem tirar nossas famílias daqui.

A ocupação do morro começou por cima, pelo pico, mas uma parte também veio por baixo. Quem primeiramente morou na parte de cima foram meus bisavós. Hoje, o lugar congrega 52 casas, onde todo mundo se conhece, como se fosse uma família.

A Favela de Santa Marta foi a primeira do Rio de Janeiro a receber uma UPP. Com o asfalto, o pico tornou-se alternativa de acesso ao Mirante do Santa Marta. São 788 degraus para se chegar. Com o acesso de carro e a inauguração do plano inclinado, o pico, antes o pior lugar do morro, tornou-se um trecho muito cobiçado. Querem nos remover porque dizem que estamos ocupando uma “área de risco”. Quando chove, anunciam que devemos abandonar a área. Mas para onde vamos?

Dizem que o morro foi urbanizado, mas como e para quem? O esgoto continua correndo a céu aberto. As escadas foram padronizadas, e colocaram corrimão, além de iluminação pública. O morro agora tem internet gratuita. Mas nenhum desses serviços chegou ao pico porque querem nos tirar daqui.

Eu sou guia e, quando visito a comunidade com turistas, conto a história do morro que eu vi e vivenciei. As histórias dos trabalhadores que construíram a Zona Sul e passaram a viver aqui. Eu conto a história da violência, que é também a história do Brasil.

Eu conto a história do Dedé. Um dos pontos turísticos do Santa Marta é a Laje de Michael Jackson, que gravou um clipe aqui. Antes disso, o lugar era chamado de Laje de Cultura Dedé, que era um cidadão do morro que morreu eletrocutado ajudando um amigo. Então, os moradores do morro resolveram homenageá-lo colocando o nome dele nessa laje, que foi rebatizada para agradar aos turistas. As ruas também mudaram de nome. Rua das Rosas tornou-se ‘Aroma de Rosas’. Como aceitar isso?

É a história real do morro que conto quando os turistas vêm aqui e que vou continuar contando para os turistas que vêm para a Copa. Não é uma história boa nem ruim, bonita ou feia. É simplesmente a história. Valeu crescer aqui? Valeu, está valendo. Mas a truculência com a qual cresci, vendo as pessoas sofrendo todo tipo de violência, isso não dá para esquecer em nome do turismo e nem de nenhuma Copa do Mundo ou de Olimpíada.

Vitor Lira é integrante da Comissão de Moradores do Pico do Santa Marta

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