Moacyr Luz: Recordações em dominó

Madrugada de outros tempos, um recente-distante, pedimos a saideira no balcão do Chico’s Bar...

Por felipe.martins , felipe.martins

Rio - Há alguns dias, dediquei alguns sambas cantados no Renascença à nossa diva Beth Carvalho, aniversariante de maio. Numa trilha de dominós, lembranças foram dobrando no meu caminho.

A primeira música que fiz com o parceiro Aldir Blanc ainda pegou o final de 1984. Perto, no calendário, conheci Paulo Emílio, amigo e letrista maravilhoso, que tão precocemente partiu dessa pra não sei onde. Ainda tenho uma canção inédita com ele. O rumor na cidade vinha dos comícios das Diretas, na Candelária. Estive lá. Depois, no Circo Voador, encabulado e em manifesto, toquei com a madrinha um samba pra ocasião.

Da mesma época, um bar no Jardim Botânico chamado Botanic, guardava um dia da semana pra receber cantoras de expressão, palavra roubada de Assis Valente. Ali, num palco mínimo, convivi com Alaíde Costa, Rosana Toledo e Lenita Bruno, a preferida de Tom Jobim. Nesse mesmo espaço, fui músico da querida Leila Pinheiro, uma das vozes mais inspiradas do Brasil. A música harmonizando com a cidade.

Eu já tinha gravado com a Elba Ramalho e Nana Caymmi, timbres que se avista ao longe, boleros e forrós à moda carioca.Ainda na Lopes Quintas, dividi palco com o genial Sergio Sampaio e, em duo com o Bebeto, Tamba Trio, aprendi acordes pra compor meus sambas.

Uma quarta-feira, Beth me levou ao Cacique de Ramos. Na mesma carona, perto de mim, a um palmo, Leni Andrade. Noite inesquecível. Na volta, madrugada de outros tempos, um recente-distante, pedimos a saideira no balcão do Chico’s Bar.

Quando gravei meu primeiro disco, perto do Natal de 87, na hora de colocar a voz, meu anjo da guarda foi ela, Leni. Pontual, aparecia todos os dias ensinando a articular versos e rimas, escondidos numa dicção de subúrbio.

Um dos violões desse trabalho está assinado em improvisos de sete cordas por Rafael Rabello. Faixa intimista e dividida com Sivuca, não bastasse, também autor do arranjo, atenua a queda dos dominós e faz pensar, como diz meu ídolo Paulo Cesar Pinheiro, “que existe uma força maior que nos guia”.
A madrinha gravou ‘Saudades da Guanabara’, ‘Flores em Vida Pra Nelson Sargento’ e mais alguma coisinha. Leni também me adotou cantando outros sambas, mas isso é vento pra outras pedras dessa estrada sinuosa.

E-mail:moaluz@ig.com.br

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