Rio - O atual cenário de sucessivos protestos e greves no Rio e no Brasil nos leva a crer em uma mudança de postura que, a partir das grandes manifestações de 2013, vem se consolidando, independentemente das causas ou reivindicações. Deixando de lado a violência de uma pequena parcela infiltrada, o número de pessoas decididas a se fazer ouvir demonstra um movimento social pouco visto nas últimas décadas. Isso, para muitos especialistas, se apresenta como um recado para as classes dominantes, essencialmente a política, de que não há mais ingenuidade nem complacência com tanta coisa errada.
O que começou com o aumento de 20 centavos nas tarifas de ônibus ganhou o Brasil num formato muito mais abrangente. Como foi dito, não era pelos meros centavos, mas por frequentes decisões arbitrárias e, até mesmo covardes, sempre beneficiando poucos em detrimento do coletivo, impactando a vida da grande massa.
A péssima qualidade do serviço de transporte coletivo, o precário atendimento na área da saúde, o baixo nível das escolas públicas, a falta de segurança, entre tantas outras deficiências do poder público, despertaram, verdadeiramente, um sentimento de revolta e indignação que só tende a aumentar. A filosofia do pão e circo pode até funcionar ainda, mas está com os dias contados.
Prova disso é uma Copa do Mundo que será realizada em menos de um mês, mas que, diferentemente de outros anos, pouco empolgou o povo. Haverá, sem dúvida, comemorações, mas nada comparável a outras copas, nas quais todas as ruas se enfeitavam, e o clima era de euforia. Os estádios estarão lotados, mas não pelo povo. Turistas, autoridades e os cidadãos com melhor poder aquisitivo é que farão a festa dita para o povo, mas que dessa vez o deixou de fora devido aos preços exorbitantes.
Mas esse mesmo povo está deixando claro que isso não vai ficar barato. Os bilhões investidos para a realização de um mês de futebol amenizariam o sofrimento de muitos, melhorariam a vida de famílias inteiras. Esse é o sentimento nas ruas, nas rodas.
Fica a expectativa de que se o que está aparente se confirmará, por exemplo, em outubro, quando nas urnas todos terão a oportunidade de deixar de fora os mesmos que hoje priorizaram o espetáculo, o ‘padrão Fifa’, instituição mergulhada em denúncias de corrupção e desvio de dinheiro. Da mesma forma que a ação publicitária, pode ser que o recado da urna seja: pensaram que iríamos reeleger vocês...? Sabem de nada... inocentes!
Marcos Espínola é advogado criminalista