Rio - Quando criança, eu não tinha o hábito de frequentar bibliotecas. Até porque elas não existiam no meu bairro, Vila Valqueire, nem nas redondezas. Saciava minha sede de leitura folheando revistas nas bancas de jornal e adorava sentir o cheirinho de papel novo nas livrarias. Lembro que, aos 11 anos, descobri a biblioteca da minha escola. Passava alguns recreios lá dentro, já que não podia levar os livros para casa. Anos mais tarde, conheci a biblioteca da minha universidade, um espaço fechado, escuro, com cheiro de mofo e onde não se podia fazer barulho. Essa era a imagem que eu tinha de bibliotecas, o verdadeiro estereótipo que possivelmente perdura até hoje.
Eu só fui descobrir o que era uma biblioteca pública quando me mudei para o Canadá, em 2007. Não podia acreditar que existia um lugar onde eu podia ler todos os livros que eu quisesse de graça. Eu passei a ir à biblioteca semanalmente com minhas filhas, para a sessão de leitura para crianças. Sempre voltávamos para casa com a sacola cheia de livros, DVDs e CDs. A biblioteca é um espaço convidativo, onde temos acesso a informação e cultura.
Foi só então que me despertou a curiosidade sobre o cenário das bibliotecas públicas no Brasil. É claro que elas existiam, apesar de não serem tão numerosas tampouco acessíveis em muitos casos. Mas, como eu não tinha acesso a bibliotecas quando eu residia no Rio, eu me perguntava se esses espaços eram utilizados pela população.
Em 2013 eu fui ao Rio e fiz questão de visitar uma biblioteca pública. Escolhi a do Centro Cultural Banco do Brasil. Era uma quinta-feira. Fiquei maravilhada com o espaço! Tudo tão novo, tão arrumado. Mas vazio. No espaço infantil, encontrei apenas uma mãe com um menino de uns 7 anos, que lhe pedia para que lesse para ele, enquanto ela ignorava o pedido, ocupada com seu celular. Encontrei mais meia dúzia de gatos-pingados estudando em outras salas de leitura. Numa quinta-feira, no Centro, eu não poderia esperar encontrar uma biblioteca cheia, não é mesmo?
Horas depois, entrei numa livraria na Senador Dantas. Fiquei então surpresa ao encontrar corredores cheios, caixas com fila, famílias percorrendo as estantes, crianças no colo de adultos folheando livros.
Eu não entendi. Se existe um lugar onde você pode ler os livros sem pagar por eles, por que é que os cariocas (talvez os brasileiros?) preferiam comprá-los em vez de pegar emprestado em bibliotecas?
Acredito que o acervo deficiente das bibliotecas seja uma das principais razões pelas quais o brasileiro prefere comprar o livro a pegar emprestado. Porque talvez o livro que ele queira ler não esteja na biblioteca. Ou se está, o acesso não é facilitado ou o livro não está em condições boas de uso.
Sou contra generalizações. Porém, essa pequena amostragem comprovou minha hipótese de que o carioca não tem o hábito de frequentar bibliotecas. E não é porque não gosta de ler, porque as livrarias estão vendendo cada vez mais. Por que será, então?
Ana Paula Calabresi é jornalista e bibliotecária em Vancouver, no Canadá