Rio - Tenho lido por aí que jornalista “é tudo mal-intencionado e merece ser espancado”. Que lógica interessante. Jornalista mal-intencionado, de fato, a gente encontra nas esquinas. Mas muitos mesmo. Alguns me deixam indignados de tão pilantras que são. Talvez tropecemos neles por aí, de tantos que são. Infelizmente.
Como também encontramos professores que aliciam alunos, que fraudam folhas de ponto, que forjam licenças e atestados médicos e continuam recebendo do estado, que ensinam mal, que se portam mal diante dos alunos — ser professor não é apenas dar matéria em sala. Tem professor que defende governo x. E que critica governo y. E que puxa saco de x ou y ou do diretor do sindicato ou do diretor da escola para conseguir benesses. E nem por isso cidadãos saem por aí espancando professores.
Como professores e jornalistas pilantras, temos médicos carniceiros e irresponsáveis. Alguns estupram mulheres. Engenheiros e arquitetos inescrupulosos. Empreiteiros que mamam dinheiro público. Advogados picaretas. Juízes que em sentença destilam preconceito religioso e desinformação. Garis que não limpam a rua. Restaurantes que servem comida estragada e garçons que te tratam mal.
Temos bombeiros que atuam em milícias, rodoviários que não respeitam passageiros no ponto, idosos, deficientes. E temos passageiros que também não respeitam motoristas. Temos economistas especialistas em fraudes fiscais. Contadores pilantras. Psicólogos doentes. Sociólogos sofistas.
Enfermeiros assassinos. Farmacêuticos traficantes. Historiadores mentirosos. Pedagogos irresponsáveis.
E, de novo, jornalistas pilantras. E professores pilantras. A solução deste conflito inerente a qualquer sociedade vai ser o justiçamento, a porradaria? Me avisem, porque apesar de eu ter 1,85 e mais de 100 kg, e nunca ter corrido do pau, tô fora dessa briga. Tenho mais de dois neurônios.
Sou filho de professores que durante mais de 40 anos deram aula na rede estadual. Que lutaram contra a ditadura. Que apanharam muito da polícia no governo Moreira Franco. Que mantêm acesa neles a chama do que eles consideram ser o verdadeiro socialismo, de uma sociedade mais justa e igualitária.
Militaram politicamente a vida toda. Sempre ao lado de Leonel Brizola — a quem sempre fiz críticas e fui respeitado por elas na mesa do café — e do companheiro Darcy Ribeiro. A opção pelo brizolismo nunca os impediu de, no Sepe, brigar por melhores condições para os profissionais da Educação. As brigas eram, sempre, no campo ideológico. Vez por outra produziam inimizades. É parte do processo.
Como bons brizolistas, não gostam da Rede Globo, onde já trabalhei. Na verdade, gostam muito pouco do que produzem os jornalistas, sejam da empresa que for. Gostam de uns poucos jornalistas e nem sei se estou entre eles.
Mas sempre ensinaram a mim, meus irmãos e aos milhares de alunos que educação pública de qualidade é uma conquista. E que não vai ser linchando jornalista (ou quem quer que seja), como fizeram alguns “professores”, que a alcançaremos.
Caio Barbosa, jornalista