Por bferreira

Rio - Logo depois da derrota brasileira para a Alemanha, na última terça-feira, um dos temas abordados pela mídia e pelos internautas nas redes sociais foi o legado do ‘trágico’ episódio para as crianças. Interessantes e louváveis as observações, destacando que o importante é competir, que para ganhar é preciso planejamento, que há dores mais difíceis de suportar, que frustrações são necessárias para crescer e que a publicidade, como sempre, cria ilusões.

Tudo correto. Isso mesmo. Toda e qualquer oportunidade é um aprendizado. Mas gostaria de lembrar que todos esses valores e entendimentos são reiterados quase que diariamente nas escolas e, infelizmente, de forma unilateral, sem grandes apoios, incentivos e, diga-se de passagem, bons exemplos dos adultos.
Futebol não é um problema para as crianças. Elas sabem disso tudo que foi dito. Não são bobas e enfrentam desencontros, dificuldades e desilusões todos os dias – sejam ricas ou pobres – muito mais paradoxais do que um campeonato de Copa do Mundo. São histórias e situações que batem à porta das escolas e dos professores. E saiba: muitas vezes é a escola – com todos os seus problemas e idiossincrasias – que se configura como o único espaço de escuta dessas crianças e jovens.

Pena que a escola é pouco lembrada. Vista quase sempre como um tampão para os pais trabalharem, para preparar as crianças para o mercado de trabalho ou Ensino Superior ou, simplesmente, para garantir participação nos programas sociais, a escola é muito mais do que isso. Nem preciso dizer o quanto ela e seus profissionais mereceriam ser mais valorizados.

As crianças que choraram nos estádios sabem que neste mundo – embora competitivo e desigual – só vence quem se dedica, estuda e se esforça. Que para vencer é preciso lutar, e muito. Sabem que o mundo, portanto, não se resume ao futebol. Da casa delas até a escola, veem ‘problemas’ reais e sem solução aparente. Que o mundo mostrado pelos comerciais é pura fantasia. E que desilusões fazem parte do cotidiano, começando dentro da própria família. Elas se frustram quase todos os dias e têm de estar firmes. Talvez, elas tenham muito mais a ensinar do que imaginamos. Até mesmo para o time da CBF, seus técnicos e torcedores brasileiros.

Marcus Tavares é professor e jornalista especializado em Educação e Mídia

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