Milton Cunha: O apedrejamento de Soraya M.

Quero ser outra coisa, diferente. Não quero ter que provar nada, porque provar já me coloca fora de mim

Por felipe.martins , felipe.martins

Rio - ‘Aja como um Homem; apedreje esta prostituta”, ordena o pai entregando as pedras nas mãos dos garotos de 11 e 9 anos. A mãe está enterrada até a cintura, braços amarrados. Portanto Soraya é um meio-totem para fora da terra, sob o escaldante sol do oriente, defronte da população masculina de sua cidadela, no Irã dos anos 80, crianças e anciãos incluídos. Suas últimas palavras foram: “Como vocês podem fazer isto comigo, ou com qualquer outra pessoa? Eu sou Soraya, vizinha e amiga de vocês. Vocês me conhecem, fizemos refeições juntos, conversamos...”.

Para além da análise cultural, admitindo que cada sociedade tem o direito de gerir seus cidadãos por suas tradições e crenças, e já questionando a inicial desigualdade de direitos, pois o homem que acusa não precisa provar, cabendo a mulher acusada o dever de provar sua inocência ou a culpa do homem caso ela queira acusá-lo; só me sobrou a dor do garoto de ter que atirar a pedra contra o corpo que lhe amamentou e amou.

Agora já estou no plano do irracional, daquela força que dizem existir da mulher em direção ao rebento, e deveria ter o retorno de proteger a genitora a qualquer custo. Quais são as possibilidades de resposta do menino, que ouviu Soraya dizer “sou sua filha (o pai dela é quem deve atirar a primeira pedra, depois os filhos, e quem as distribui é o marido), sua esposa, sua mãe”? Ele pode se recusar, e ser ele mesmo castigado como não homem. Ele pode se dilacerar e fazer o jogo do masculino. Mas inteiro, acho que ninguém consegue sair desta não.

Que forças inimagináveis teria um menino que buscar para consumar tal ato? Que padrão de humano é este, que te exige a anti-humanidade de matar? Merecem as adúlteras morrer?

Seriam os homens nascidos naturalmente para o adultério? Mais que isto: ao “compreender” que sua mãe é pecadora, estaria o menino municiado de ódio suficiente para não ver ali a mãe? Pois eu fiquei no menino. De tanto eu ouvir, bichinha que era, a incompreensível frase “aja como um homem”, a prova de coragem viril me sufoca e concluo: não sou um homem, destes com H maiúsculo. Quero ser outra coisa, diferente. Não quero ter que provar nada, porque provar já me coloca fora de mim, e quero estar dentro.

Quero seguir minha infinita bondade, e minha gritante maldade sempre que estiver nas encruzilhadas. E inauguro em mim um outro tipo de homem, que prefere ser outra coisa a praticar certas machezas.
Quero ser outra coisa, diferente. Não quero ter que provar nada, porque provar já me coloca fora de mim

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