Fernando Molica: O PT diante do espelho

A morte de Campos e o lançamento de Marina explodiram o roteiro, tiraram do PT o adversário de sempre

Por bferreira

Rio - É cedo para prever o resultado da eleição presidencial, mas não deixa de ser curioso ver o PT ameaçado por uma mulher que, como Lula, traz no rosto e na história de vida uma espécie de certificação de origem petista. Marina Silva tem origem pobre, foi seringueira, empregada doméstica, contraiu doenças relacionadas à pobreza, alfabetizou-se aos 16 anos. A existência do PT é que permitiu a Marina transformar biografia em ação política — seria inimaginável, há uns 30 anos, que lulas e marinas pudessem chegar à Presidência.

Ao trocar a esperança pelo pragmatismo, o PT viabilizou sua chegada à Presidência e adquiriu as condições para administrar o país. Em 2002, o então candidato Lula procurou acalmar os setores mais conservadores, prometeu respeitar contratos. No governo, o PT mostrou desenvoltura no velho jogo da política, investiu no mercado de compra de apoios, não vacilou ao reproduzir práticas que, antes, tanto condenava. Tornou-se aliado e refém de políticos como Renan Calheiros e Sarney — a foto de Lula na casa de Maluf resume todo esse processo.

O PT apresentou seus bons resultados — redução da pobreza, aumento do emprego e da renda, ampliação do acesso à universidade — para justificar os meios que usou para obtê-los. O modo petista de governar ganhou outro significado. Em 2010, escândalos que aposentaram lideranças do partido obrigaram Lula a inventar a candidatura de Dilma Rousseff, a cara de poucos amigos da ex-guerrilheira seria uma garantia contra os malfeitos. Mas a carranca presidencial não foi suficiente para afastar os vendilhões, eles haviam se tornado essenciais ao templo. São tantos anos de governos petistas — 12 —, que jovens com pouco mais de duas décadas de vida devem achar que a corrupção brasileira foi inventada pelo PT. Pior: o crescimento pífio dos últimos meses abalou a confiança na possibilidade de uma vida cada vez melhor.

Dilma preparou-se para, em 2014, repetir 2010, fazer com que o eleitor comparasse o país com o deixado pelo PSDB. A morte de Eduardo Campos e o lançamento de Marina explodiram o roteiro, tiraram dos petistas o adversário de sempre. Repaginada, porta-voz de propostas que nem de longe lembram as defendidas quando integrava um tal de Partido Revolucionário Comunista, a ex-petista Marina chega a 2014 parecida com o Lula de 2002 — sem negar sua origem popular, faz alianças, acena para adversários, procura acalmar setores empresariais. Assustado, o PT mostra que não esperava ser obrigado a enfrentar a si próprio.

E-mail: fernando.molica@odia.com.br

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