Frei Betto: Cinismo eleitoreiro

O adesista é, por natureza, um astro sem luz própria. Sua ambição é manter-se no poder a qualquer custo

Por thiago.antunes

Rio -  O adesista é um ser que se multiplica pela Terra em períodos eleitorais, nos quais são fechados acordos partidários, coligações e alianças políticas. O adesismo é um fenômeno tão espúrio quanto remoto. Judas é o mais famoso adesista. Sicário, acercou-se de Jesus, que exercia fascínio no povo. Esperto, assumiu o controle do dinheiro da comunidade dos apóstolos.

Ao constatar que Jesus não correspondia a seus objetivos e mostrava-se impotente diante do poder que o perseguia, Judas preferiu mudar de lado e auferir bons lucros. O adesista sofre da síndrome de magnetismo. Não pode ver um astro em ascensão sem que se acelere nele a vontade irrefreável de gravitar em torno. Assim, quanto maior o índice do candidato nas pesquisas, tanto mais forte o peso que exerce na conjuntura, atraindo a si aqueles que, quais mariposas, voam na direção da luz de maior brilho.

O adesista é, por natureza, um astro sem luz própria, como os planetas. Sua ambição é manter-se no poder a qualquer custo. Jamais ouve o eco das próprias palavras, o que lhe permite afirmar hoje o que negou ontem. Sente-se à vontade para mudar de lado, praticar o adultério partidário e cometer todas as infidelidades políticas.

Convicto, o adesista peca a favor de seus próprios interesses e se recobre de indulgências concedidas por aqueles que têm em mãos a chave do paraíso palaciano. Sua adesão traz, em recompensa, a absolvição de quem comanda o palanque no qual reina a mais descarada promiscuidade ideológica.

A sabedoria do adesista consiste em manter-se equidistante, sempre pronto a mover-se na direção de quem se projeta. Em sua face, traz sempre um sorriso cínico, de quem acha graça na própria lógica, que tudo explica e justifica, movida por uma camaleônica agilidade retórica.

Destituído de princípios, o anseio do adesista é fazer da política um bom emprego e, do poder, uma função de prestígio. Oportunista, ele sempre aguarda que os ventos políticos soprem mais forte em uma determinada direção, indicando-lhe o rumo a tomar.

O adesista só torce para time que está ganhando. Para ele, conivência e conveniência são sinônimos. Traidor inveterado, seu único pavor é ser reconhecido como tal. Por isso, pula a cerca com pose de herói e faz do “interesse público” o colchão que lhe amacia a queda em terreno alheio. Só uma coisa lhe importa: preservar-se na esfera do poder, único lugar onde se reduz a distância entre o desejável e o possível.

Frei Betto é autor de ‘Fome de Deus’ (Ed. Paralela)

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