Por bferreira

Rio - A memória atenta pra claridade do dia. Em passos lentos, quase um bonde do bairro, eu baldeava pela Almirante Alexandrino, Santa Teresa, quando o telefone tocou. A intuição se antecipou à voz do outro lado: “Luiz morreu”. A ligação aconteceu há seis anos, 20 de outubro, e, desde então, nunca mais desconectei. Nas entrevistas, Luiz dizia que o nome artístico, “Da Vila”, homenageava todos os povoados que cabiam na palavra: da Penha, Aliança, Vila Isabel, a raiz de ‘Valeu, Zumbi’, um dos mais lindos sambas­enredo de todos os tempos. Magro, comia pouco, não lembro de um prato feito em sua mesa. Um conhaque e pequenas mordidas na carne seca pendurada no mercado, no bacalhau ainda salgado pro fim de semana, e a festa estava feita.

Em 1996, rodamos com o Projeto Pixinguinha pelo Nordeste brasileiro. Os quatro dias em Aracaju foram vividos à base dos recheios do acarajé da “baiana” da esquina. Uma dieta de destilados e cumbucas de quiabo, camarão seco e pimenta ardida. Desembarcados em Natal, o show antecipado permitiu uma folga sem entrevistas ou passagem de som, rádios, fotos, obrigações e afins. Amanhecemos na Praia de Ponta Negra, antes mesmo dos pescadores, dos siris moles, antes da primeira maré. Luiz descobriu o dono de um quiosque soprando um copo de café na birosca, descalço, a pele das costas ressecada feito o sítio do interior. A conversa evoluiu pra Maria Boa, cachaça local, e, em meia hora, bancos desvirados, frigideira de óleo cansado, o dourado acordava na farinha de trigo, odor de maresia e felicidade. Ainda na região, mais acima, em Fortaleza, Seu Zé Maria servia uma lagosta cozida na água e sal sem igual nos bistrôs internacionais. Volume máximo, sua discoteca era dedicada ao samba. De repente, do fundo do ‘bar­barraco’, Zé apresenta o disco ‘Esquina Carioca’. Na capa, eu e ele, Luiz Carlos da Vila.

Oficialmente, não tenho um número aproximado de quantas vezes subimos juntos no mesmo palco. O show, batizado de ‘Carvão e Giz’, foi o meu orgulho de vida. Nossas músicas foram ouvidas por plateias cubanas, em cerimônia presidencial na Holanda, nas ladeiras da Lapa, o Carioca da Gema ou acústico nos salões do Nova Capela. No dia que compusemos ‘Cabô, Meu Pai’ com o parceiro Aldir Blanc, a rua foi nossa companheira. Refrão cantado à exaustão, enfileiramos bares do Leme à Tijuca, abraçados feito os Meninos da Rua Paulo. Nossa última apresentação foi em São Paulo. No dia seguinte, algumas confidências: ele iria se internar, eu estava vetado pra algumas práticas etílicas. Passado seis anos daquela ligação, a linha continua ativa. Sei de cabeça o número. Sei de cor a saudade.

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