João Batista Damasceno: O medo venceu o ódio

Apurado o resultado, o mesmo setor da sociedade começou a falar em impeachment ou separatismo do sul-sudeste do Brasil. Que Brasil querem mudar, se não mudam a si próprios?

Por O Dia

Rio - Eu nunca tinha visto a direita tão raivosa e incivilizada como vi no dia da eleição. Na Zona Sul do Rio, senhores identificados como partidários do candidato oposicionista atacavam, com os cabos das bandeiras, os carros dos eleitores da candidata à reeleição. Não eram adolescentes. Mas, homens velhos, com idade superior a 50 anos, carregados de ódio, numa euforia mórbida bem diferente da euforia contagiante com que atuam os adolescentes capazes de excessos decorrentes da falta de vivência.

As senhoras que os acompanhavam pareciam nunca ter tomado sol. Tinham uma cor pálida, pele empoada, cabelos tingidos, roupas de grife e óculos escuros. Mas, igualmente raivosas e histéricas. Andavam em bloco xingando quem fosse identificado com a candidata à reeleição. Tratava-se de gente que costuma discursar em prol da elegância.

Apurado o resultado, o mesmo setor da sociedade começou a falar em impeachment ou separatismo do sul-sudeste do Brasil. Que Brasil querem mudar, se não mudam a si próprios? Falam das mazelas alheias como moralistas cuja ética é a falta de ética.

A demonstração colérica e incivilizada de tais setores forçou a opção de quem se absteria, votaria nulo ou branco; seu ódio inspirava medo. A abstenção, como sempre, cresceu no segundo turno em relação ao primeiro. Cresceu pouco e foi inferior ao segundo turno da eleição de 2010.

A soma dos votos nulos e brancos no segundo turno reduziu exatos três por cento. A presidenta foi reeleita com 3,28% de diferença. Se os eleitores tivessem repetido os votos brancos e nulos do primeiro turno, isto poderia ter influenciado outros fatores e ela não se reelegeria.

A candidatura do opositor cresceu do primeiro para o segundo turno 16 milhões de votos. A da presidenta apenas 11 milhões. Os votos de Luciana Genro (Psol), Eduardo Jorge (PV), Zé Maria (PSTU), Mauro Iasi (PCB) e Rui Costa Pimenta (PCO), considerados à esquerda, no primeiro turno, somaram menos de dois milhões e quatrocentos mil votos.

A presidenta Dilma recebeu parte dos 22 milhões de votos da candidata do PSB derrotada no primeiro turno, Marina Silva. Mas, foram os três por cento de eleitores que votaram nulo e branco no primeiro turno, que adotando o voto útil, salvaram a presidenta da derrota.

A direita expulsou os setores populares das ruas, mas o ministro da Justiça contribuiu para que isso acontecesse. Se a presidenta continuar a reforçar a concepção política da direita, com o emprego do Exército contra as populações pobres das favelas, sem uma política de direitos humanos, reprimindo os movimentos populares, com descaso à questão indígena, sem política ambiental e tentando cooptar os empresários de comunicação (rádio e televisão que são concessões públicas) com verba de publicidade em vez de propor uma regulamentação republicana, a direita vai ganhar as ruas e o poder.

João Batista Damasceno é doutor em Ciência Política pela UFF e juiz de Direito

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