Por bferreira

Rio - A sonda pousa num cometa, dez anos após ser lançado, e eu lembro do meu passado assistindo televisão na janela do vizinho. Os sobrinhos jogam Mortal Kombat, rojões de tiros em 3D, eu, ousado, respondo com os meus botões de galalite. Em comum, as paixões, os deslumbramentos. A insônia após o primeiro beijo, o palavrão permitido na final do campeonato, a vincada calça comprida, tudo emoldurado na tua identidade.

A justiça também é única, de Leonardo da Vinci a Steve Jobs, da maçã ao crack do inferno. Não existem diferentes pesos na balança, mesmo aqueles oxidados nas feiras de outro século. É certo que algumas vezes um olho abre na cegueira necessária, um sussurro na mudez obrigatória, um som que lhe chama a atenção. Mas a justiça existe para ser imparcial, nunca a exerci com as próprias mãos.

No anúncio da tela, me chama a atenção um close do sensacional ator Otávio Augusto, unanimidade brasileira. Otávio trabalhou num filme chamado ‘Boleiros’ interpretando um vendido juiz de futebol. Numa sequência, ele, de uniforme preto, apita um pênalti inexistente, piscando o olho pro banco da equipe favorecida. O atacante erra duas vezes pra desespero da autoridade máxima que propõe, veladamente, a troca do batedor. Cômico se não fosse trágico.

Os bugios macaquinhos guincham. Da minha juventude o famoso Escândalo da Mandioca e nenhum bolinho de aipim julgado. Outro dia, li na página policial que um perigoso traficante carioca, auditivo por batismo, fora solto por engano a mando de um Tribunal de Justiça, ordem suprema e a grade aberta diante dos pasmos carcereiros.

São portuguesas e fluminenses sob o martelo da mesma corte. Não bastassem indultos e campanhas, surge o caso da carteirada na Lei Seca.

Piada de salão, própria para os primeiros dez anos de vida, o inspetor do colégio organiza a saída do ônibus que transporta os alunos:

— Vamos entrar! Aqui não existe distinção, somos todos verdes! Os verde-claros na frente, os verde-escuros pra trás!

Sem lenço, sem documento, caminhando contra o intento, o juiz vira vítima. A ré recorre na porta do cárcere.

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