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Leda Nagle: Pra que tanta pressa?

Estamos pulando do ontem para o amanhã como se isto fosse possível, fosse normal, natural ou humano

Por bferreira

Rio - O Natal está dentro de nós, disse padre Marcos, tijucano convicto, pároco da Igreja de São Conrado, ao dar a bênção na reinauguração de um banco, no começo da semana. Ele tem razão. É muito bom ganhar presente. Mas só com presentes não se faz um Natal. É muito bom comer bem, mas não é só com rabanadas que se faz um Natal. A festa é muito boa, mas nem só de festas vive o Natal. É preciso mais. É preciso ter sinceramente um sentimento de amor e de reflexão. É preciso ter o olhar voltado pro outro, pro mundo e pra gente mesmo porque, convenhamos, nestes tempos contemporâneos, a gente se esquece não só do outro, mas da gente também. Dono de um humor especial, padre Marcos me encantou com as histórias do dia a dia dele. E me chamou atenção pra correria, pra pressa com que estamos levando a vida.

Como que atropelando a nós mesmos, a nossa história e a existência. Padre Marcos me contou a observação de uma paroquiana de mais de 80 anos que, conversando com ele, reclamou das publicidades natalinas que, este ano, começaram dia 1º de novembro. Comentou a senhora: “Amanhã é Dia dos Mortos, nem isto respeitam, já estão todos falando do Natal.” Nos divertimos com a observação da senhora e demos razão a ela. Estamos pulando do ontem para o amanhã como se isto fosse possível, fosse normal, natural ou humano. Nos primeiros atribulados e ensolarados dias de dezembro, passando pela Avenida Presidente Vargas, observei os operários no Sambódromo, construindo o Botequim do Samba, montando as arquibancadas do Carnaval como se o Carnaval fosse depois de amanhã.

E tenho vontade de falar para o padre e para a senhora que a urgência do momento é com certeza assustadora. Ninguém aguenta mais esperar. Tudo é para ontem. É como se o hoje, o agora, fosse um detalhe que nem sempre merece ser considerado.Com suas palavras alegres, na sua bênção bancária, Padre Marcos lembrou que o ano que começa na semana que vem é 2015. Portanto, disse ele, não se esqueçam de desejar um Feliz 2015, porque, não sei se vocês já notaram, mas só se fala em 2016. Tudo é para 2016. O metrô, as obras, o sucesso, a felicidade, a cidade olímpica, os prêmios. Ele tem razão de novo.

O que é que está acontecendo com a gente? Por que precisamos correr tanto? Pra onde vamos com esta pressa toda, com esta agonia, antecipando o calendário, querendo adivinhar o amanhã, buscando sem trégua a coisa nova, o futuro depois de amanhã, o que vai acontecer, o que virá. Há um frenesi no ar que provoca a correria, e também não há explicação lógica que justifique por que corremos tanto. No dia a dia, com o calendário e com a vida. Por quê? Para quê? Corremos sem saber. Se a gente não se cuidar e não parar para viver o aqui, o agora, a gente nem vai perceber 2015 acontecendo. Não que ele prometa ser exatamente um mar de rosas, mas se o atropelarmos provavelmente chegaremos sem ar ao sonho de 2016.

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