Por felipe.martins, felipe.martins
Rio -  No táxi, penúltimo dia do ano, o motorista começa a conversa. Amenidades ficaram restritas aos dois primeiros minutos: o Cristo Redentor está lotado, recebeu 11 mil pessoas na segunda-feira, e Réveillon parece Carnaval, com as ruas cheias, as pessoas achando que o mundo vai terminar dia 31 e as vitrines cobertas de serpentinas douradas e roupas brancas. Alguns quarteirões à frente, inicia sua retrospectiva de 2014: Marina se acabou ali, “naquele debate”, e morreu ao apoiar Aécio. Dilma permite a roubalheira. Se seu voto foi nulo, quem te garante que não foi para um dos dois? O Brasil deu o maior vexame da história na nossa própria Copa do Mundo.
Dois minutos depois de eu praticamente concordar com tudo, ele me olha pelo retrovisor e faz a pergunta: “Acredita em reencarnação?”. Ele acredita e explica por quê. Bebê, quando começou a balbuciar as primeiras palavras, olhava para o céu, chorava e falava “dade”. A mãe o pegava no colo, ele apontava e repetia: “dade”. Lá pelos 4 anos, continuou com a mesma atitude e falava “saudade”. “Vou falar pra você”, ele disse, “era uma saudade tão grande que equivalia a ter deixado para trás o amor de dez mães”. “Então era uma tristeza imensa”, comentei. Ele: “Tão grande que até hoje eu sinto que eu era muito amado. Sou amado pela minha mãe também, mas só a reencarnação explica a saudade que eu sinto de todas essas mães, de outras vidas. Mas se eu tive que voltar, é porque devo ter feito por merecer”. Fiquei em silêncio. O taxista continuou: “Tenho muita fé e acredito em reencarnação”. “Que bom”, eu disse, “tenho muita fé”. Ele veio falando até eu chegar ao meu destino, transformando o papo em lições como “perdoar é libertador” e “a raiva faz uma conexão com o objeto da raiva, incentivando a energia ruim”, no que concordamos. Desejamos um bom ano um ao outro e desci.
Publicidade
Em 2015, sonho que nenhuma mãe se afaste de seu filho e que os desaparecidos voltem ao lar. Porque amor de mãe é grande demais, etéreo, e precisa ser transmitido, usufruído, vivido em sua plenitude. Se a mãe já se foi, independentemente da crença religiosa de cada um, fica vivo esse amor. Há a saudade do ser físico, mas a presença de alma está ali, através de tudo que você recebeu nos primeiros anos de vida.
Que as mulheres que decidiram ou decidirem ter filhos sejam de fato mães, entregues, acolhedoras, compreensivas e assumidamente leigas, diante de seu desconhecimento de criar um outro ser, mas tentem acertar. Criem com amor, atenção, doação. Que seja um ano de mais presença e menos saudade.

E-mail: karlaprado@odia.com.br
Publicidade