Por bferreira
Rio - O que aconteceu com o paraíso descrito por Caminha e Vespúcio? A visão da terra de bons ares, abundantes águas, árvores exuberantes e animais exóticos, e ainda habitada por “gentis” humanos, não passou de um ‘flash’. Não podiam os escribas imaginar o que viria a ser implantado aqui: uma organização social cruel, desumana, genocida, desigualitária, parasitária e praticante da corrupção. Faltou-lhes malícia histórica.
Não existe paraíso sem pecado. Nem o Éden se livrou disso. Bastava se recordar da narrativa do Gênesis. O Éden não foi palco apenas da ilusão de uma vida eterna e em paz. Nele também aconteceu o primeiro pecado: Eva e Adão, instigados pela serpente, comeram do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Tornaram-se, consequentemente, mortais e pecadores e foram expulsos do Jardim edênico. No Brasil (e no mundo), desde o princípio, são muitos os pecados e os pecadores que nos afastaram da belezura e do esplendor.
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Daquele paraíso imaginário e dócil pouca coisa sobrou (porque suas águas, suas árvores, seus animais e seus bons ares foram ou estão sendo destruídos impiedosamente). Paralelamente ao Brasil paradisíaco foi se construindo outro, diabólico e infernal: o da plutocracia (governo das grandes riquezas), da genocidiocracia (governo regido pela violação massiva dos direitos fundamentais e extermínio permanente de pessoas) e o da cleptocracia (Estado cogovernado por ladrões).
Ao longo da história, poucos apareceram na administração pública brasileira para propagar bons princípios. Não é fácil remar contra a maré sufocante. O grau de corrupção existente em um país depende de muitos fatores, destacando-se o da tolerância social (assim como das necessidades básicas) da população. Nas democracias (ainda que de fachada, como a nossa, porque ilegítima em razão do poder do dinheiro) é a população que elege os administradores públicos. Se das suas mãos sai a ratificação dos políticos corruptos, tudo está amalgamado. Forma-se um corpo único. Tudo começa com a convivência, depois vem a conivência até se alcançar a corrupta-existência.
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Luiz Flávio Gomes é jurista e professor