Milton Cunha: Semiologia de pele negra

Carmen Luz problematiza a questão da pele negra em dança, vídeo, teatro e performance

Por bferreira

Rio - A importância de ver o povo negro manipulando os signos da negritude é que de alguma forma isto se revelará para além da manipulação branca. Não é a priori melhor ou pior, será diferente. Porque na pele dos outros, pimenta é refresco, eu até consigo dimensionar, me apiedar e solidarizar, mas só quem foi escravizado sabe totalmente do que se trata. Eu não desço o morro diariamente, não sou visto como suspeito número 1. E, ao produzir sua obra de arte, isto revelará uma visão de dentro, alguma especificidade, e este produto terá que ser lido, analisado, enfrentado com esta pulga atrás da orelha, tipo “eles sabem do que estão falando”, eu tenho a teoria, e eles, a prática.

Na plateia do Cacilda Becker, diante do balé ‘Chica’, da Cia. Étnica de Dança, já fui me empoleirando e me perguntando. Seriam imitadores das macaquices brancas de balé clássico ou moderno? Posso e devo cobrar aquele rigor simétrico que seduz europeus positivistas, cujo rigor científico arranca a individualidade e transforma humanos em máquinas de deslumbrantes precisões? E por que o artista negro deveria ser analisado à luz dos desejos civilizatórios, num processo de civilização que começou dizendo para estes negros “vocês não são gente”?

A grande diretora e coreógrafa Carmen Luz problematiza a questão da pele negra em dança, vídeo, teatro e performance, partindo de sua corte de sete bailarinos, que com restos de suas roupas edificam um boneco totêmico da escrava rainha do Arraial do Tejuco, renascida no Salgueiro, e com setas no mapa que indicam a Bangu do aqui e agora. Um grande saco de lixo preto entra em cena para dançar, mas quando surgem os sapatos plataformas tipo passista de Carnaval, filmados em close nos pés de quatro negras cujas pernas mostram correntes e cordas que limitam os movimentos, e ouvem-se mar e ondas evocando os navios negreiros (e os pés ficam para lá e para cá como se revivessem a tumbeira escravidão, só que agora), foi aí que eu disse: epa!, configurou-se a obra de arte manipulada pelo conceito da criadora. Um momento que dá lastro ao todo e que justifica a montagem.

Depois do intelecto, a técnica: no campo corpóreo, é um balé que treme, os corpos estão com medo, estão acuados, são corpos apavorados pelas acusações ou suspeitas que os oprimem. Um balé sobre o medo, a dificuldade de relaxar, a tensa linha real que junta a idealização da negra e o tentar driblar isto, para mostrar uma individualidade rica. Negro, falando de humano, sob a ótica da mulher. Fácil não é, mas tem que ser visto e ouvido, sem pré-conceitos.

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