Por felipe.martins

Rio - Em parte por preguiçoso, em parte por velho, acabo passando os dias enfurnado no apartamento, lendo jornal, bebendo cerveja sem álcool, comendo sanduíche de mortadela e ouvindo na vitrola minhas bolachas de vinil: Miles Davis, Martinho e Mart’nália, Chet Baker, Paulinho da Viola, Jamelão, Jovelina, Elizeth, Nat King Cole, os Joões (Donato, Gilberto e Bosco), Tom e Vinicius, Sinatra (ganhei quatro elepês com 100 músicas gravadas pelo Gravatá), os novos e velhos baianos, incluindo toda a família Caymmi, Gonzagão e Gonzaguinha, Ron Carter, Aldir, Diana Krall, Johnnie Alf, Toots Tilleman, Zé Kéti, Tony Bennett, Cartola, Louis Armstrong, Nelson Cavaquinho, todas as cantoras americanas, mas destacando Bessie Smith, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughn, Anita O’Day, Peggy Lee, Doris Day, Rosemary Clooney, Dinah Washington, Nina Simone (obrigado, Zuza Homem de Mello), Judy e Liza Minelli. E mais Paul Robeson, Cauby, Maysa, Baden, Doris Monteiro, Dick Farney, Nora Ney, Lúcio Alves e Macalé. Vou encerrando a lista por aqui; até que a memória não está tão ruim quanto eu pensava.

Outra coisa de que velho não escapa: ver TV. Segundo o grande pensador copacabanense Stanislaw Ponte Preta, poderia ser mortal se não fosse uma invenção mais importante que a da televisão: o botão de desligar. Sem ele, milhões de cérebros ficariam irremediavelmente danificados. Nas novelas, por exemplo, não entendo por que ninguém fala normalmente; e todas têm mordomo.

E ainda por cima, todos (menos o mordomo) berram; me fazem lembrar Shakespeare: “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, significando nada.” Acho que estou com um tipo de surdez só para novelas. A Tatá Werneck, por exemplo, que língua ela fala? Além disso, não entendo nada o que está acontecendo na tela, misturo as novelas. Célia me proibiu fazer perguntas tipo “Por que esse cara está querendo se vingar da Glória Pires?” “Ela está (estava) na novela das oito (que é às nove), esta é a das sete.”

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