Por felipe.martins

Rio - O Imperador D. Pedro I gostava, de vez em quando, de esquecer os burburinhos da Corte e viajar para a Real Fazenda de Santa Cruz, onde costumava ter encontros amorosos secretos. Sobre as viagens de Sua Majestade, Brasil Gerson escreveu na História das Ruas do Rio: “D. Pedro I e sua comitiva paravam na fonte de pedra da igreja, para que seus cavalos bebessem água, enquanto ele buscava sofregamente a magnífica pinga do vendeiro que ficava defronte, famosa desde Campinho até Campo Grande.”


O Imperador do Brasil era frequentador de uma tendinha na altura de Realengo, onde encostava o cotovelo no balcão, jogava conversa fora e tomava umas doses da urina-de-santo. Não duvido que jogasse purrinha com os populares. Penso no Imperador que gostava de tomar suas pingas e tento listar aqui, fascinado, os diversos sinônimos que a cachaça ganhou entre nós. Luís da Câmara Cascudo afirma que inventamos dois mil e tantos apelidos para a branquinha. Algumas denominações espalhadas pelo Brasil são irresistíveis: Quebra-goela, uca, suor-de-alambique, Iaiá-me-sacode, gramática, venenosa, suor-de-cana-torta, cobertor-de-pobre, amansa-corno, azulina, marafo, meu consolo, imaculada, homeopatia, Parati, jurupinga, democrática, tira-teima, baronesa, desmancha-samba, suruca, jeripinga, levanta-velho, etc.


Tomada com a devida moderação, homeopatia é uma beleza e ainda vira remédio. Minha avó garantia que cachaça com ameixa é purgativo de primeira; com folha de eucalipto é suador que baixa febre; com catuaba é capaz de levantar defunto.


Não sou feito Dom Pedro I, prefiro umas geladas, mas lembro-me exatamente como passei a conhecer as artimanhas da cachaça. Era moleque quando o Salgueiro desfilou com o enredo “Do cauim ao efó, com moça branca, branquinha”. Na inocência do menino, achei que a moça branca citada no enredo e no samba de Geraldo Babão e Renato de Verdade era uma branquela azeda que gostava de cozinhar. Aquele samba do Salgueiro citava, ainda, vasta variação de pratos típicos da cozinha brasileira; do churrasco à buchada, passando pelo tutu, peixada, jabá com jerimum, vatapá, feijoada e quejandos.


Vivemos hoje um período em que essa culinária mais pesada anda carecendo de prestígio. Já me sugeriram inclusive virar vegano, vegetariano e coisas do tipo, para equilibrar as taxas e proteger o figueiredo. Até cogitei cair dentro da parada, mas um argumento definitivo me convenceu do contrário: essa culinária mais, digamos, saudável, ainda não dá samba.

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