Rio - Como é forte e impactante o momento da morte de pessoas que gostamos e admiramos. Mesmo que estas pessoas não façam parte do nosso dia a dia mais próximo, nem sejam da nossa família de origem. Mas fazem parte da nossa família de escolha. E estes pensamentos e sentimentos surgem no momento em que, viajando, recebo a notícia da morte do Miele. Como eu gostava do Miele, cujo nome significa mel em italiano. Da sua alegria, da sua simpatia, do jeitão sempre de bem com a vida, fizesse chuva ou sol, fosse noite ou dia.
A impressão que tenho é que, pra ele, não havia tempo ruim. Sempre foi assim, desse jeito, que eu o encontrei, nas muitas entrevistas que fizemos , em algumas apresentações de eventos que compartilhamos e nas vezes em que, junto com sua fiel escudeira Anita, me recebeu tão carinhosamente, na casa elegante e personalíssima de São Conrado. Sim, partilhamos também o mesmo bairro há mais de trinta anos. O bairro cheio de mazelas mas que apelidei de nosso principado. É engraçado como, no momento da perda, a gente sempre se lembra de coisas simples ou banais que vivemos juntos com a pessoa que perdemos.
É hora de tristeza mas no caso de Miele como não rir recordando situações antes vividas. Quantas caronas ele e Anita me deram ao longo destes anos. Ou a caixa de sanduíches que ele me mandou quando descobriu que existia uma nova loja de conveniência neste bairro tão particular. Eu sei que vai ter alguém mais amargo que vai dizer que estas lembranças são bobagens, que acontecem com todo mundo. E é verdade. Mas a gente sempre se esquece, no cotidiano corrido, de valorizar o afeto. A gente gosta mas não diz pra pessoa que gosta.
Que bom que fui ao Miranda ver o último show de Miele, dez dias antes da partida dele. Que bom que pude aplaudir Miele antes do fim. Que bom que pude rir das suas histórias sempre divertidas. Como a primeira transmissão da TV brasileira, onde ele, ou melhor as pernas dele, ainda menino, foram a primeira imagem transmitida ao som do locutor do que dizia “ a televisão brasileira dá hoje seus primeiros passos”. E ele fez de tudo neste veiculo que era, como o palco, seu lugar de escolha e onde mais brilhava. Ele e seu inseparável copo de uísque. Ele e suas piadas. Ele que foi o único artista brasileiro a fazer um show em Portugal contando piadas de português.
Que bom que pude entrevistá-lo sobre o show na véspera do espetáculo, ouvi-lo contar das descobertas e aventuras dos seus 60 anos de carreira, com direito a lançamento de CD e relatos imperdíveis sobre Ronaldo Boscoli, seu parceiro profissional mais constante, Pelé, Roberto Carlos e Elis Regina. E só pra lembrar , seu último trabalho não poderia ser mais atual, bem próprio para os tempos em que vivemos. O título do CD é 'Miele para ouvir no engarrafamento'. Ele deixou pra gente uma herança de alegria e gargalhadas.Vamos precisar delas.