Por bferreira

Rio - Algumas pessoas envelhecem de um jeito esquisito. E não estou falando de rugas, esquecimentos ou mudanças no cabelo. Falo de comportamento, do jeito de ser e de viver no coletivo ou em sociedade. Como queiram. Algumas pessoas, com o passar dos anos, aderem ao que eu chamo de 'sincericídio'. E o que seria isto? Seria, por exemplo, julgar os outros com severidade, sempre se perdoando e desculpando e falando para o outro ou para os outros, compulsivamente, tudo o que pensa sobre os outros. Principalmente mal dos outros, num momento de fofoca ou agressão.

Isso acontece porque se acham tão geniais, tão engraçadas, tão especiais que, para elas, os outros simplesmente não existem. E quando a pessoa já era arrogante e pretensiosa antes de aderir ao “sincericídio”, este tipo de comportamento fica ainda pior ou mais frequente. Isto acontece com as pessoas que se acham mais cultas, mais inteligentes, que mais conhecem a história de uma ou outra cidade no exterior, que mais sabem de cinema ou de literatura. De modo geral, este tipo também é o mesmo que quer dominar a roda de conversa, a pessoa que não deixa ninguém falar, a que grita contando seus casos, na certeza absoluta que o que ele diz, interessa e fascina a todos.

Frequentemente, este tipo de gente também ri bem alto e muito de suas histórias que, segundo ele mesmo e sempre ele e quase sempre só ele, são as melhores no conteúdo e na forma de contar. É bem verdade que nos primeiros quinze minutos de uma conversa este tipo pode até parecer fascinante para os mais ingênuos, ou divertido para os mais generosos, mas, de modo geral, bastam quinze minutos do show, o Rei fica nu. Ou seja, todo mundo se cansa. E a pessoa segue, alegre de ouvir a si mesma, certa do seu “sucesso”. E dá-lhe gritarias e mais aulas sobre museus, filmes, quadros e livros, numa verborragia sem fim.

As redes sociais e a solidão dos adeptos do “sincericídio” , de certa forma, fomentam isto. Porque, em casa, sozinho, ele com seu computador , encontra um terreno fértil para que suas verdades absolutas e definitivas cresçam numa quantidade admirável, já que a folha em branco e a tela em branco aceitam tudo generosamente. E as centenas de fotos de si mesmo que este tipo geralmente posta com desenvoltura? Apoiado numa dezena de curtidas e de elogios do tipo “lindo” ou “gato”, na qual ele acredita piamente. Afinal, quem naõ o acharia lindo? Quem ousaria ser mais brilhante e mais inteligente? Só Freud explica? Bem, dizem que Freud é autor da frase: “Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo”... Não sei se a frase é realmente de Freud, mas faz sentido. E pode ser que ajude a explicar.

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