Eu fazia canções pra Nana Caymmi, Lana Bittencourt, mas o samba já ritmava meu coração carioca
Por bferreira
Rio - Quarta-feira foi comemorado o Dia Nacional do Samba, uma homenagem que nasceu com a visita do craque Ari Barroso a Salvador, Bahia. O autor de ‘Aquarela do Brasil’, música com milhares de gravações e milhões de execuções pelo mundo, pisou na terra do dendê num dia dezembro, dia 2. E foi assim, pinçado de um momento especial, que o samba foi reverenciado com data, feito os cultos a Nossa Senhor Aparecida, em outubro ou, São Jorge, em abril.
Acontece que o calendário marcado, como as melhorias agendadas num telejornal, perdeu-se na poeira do rock, da bossa nova, do tropicalismo e sertanejos prateados. O samba se defendia com Riachão, Martinho da Vila e seus heróis da resistência, Candeia, Elton Medeiros, Cartola e Nelson Cavaquinho. Aos amigos que frequentam essa coluna já antecipo as desculpas por ter esquecido de mil nomes, mil sambistas de mãos ásperas subindo os tijolos da obra pessoal. Lembrei do querido Nelson Sargento trazendo nas costas a solidão da velha-guarda. Sim, Monarco, batismo melhor, impossível, raiando na Portela as entidades descalças de Clara Nunes. Zé Ketti memorizando o primeiro samba que Paulinho da Viola, em parceria com Casquinha, fez pra ala de compositores da escola, ‘Recado’ e, por fim, tabela com a Zona Sul no histórico show do Opinião.
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Entre parênteses e reticências, três pra ser preciso, chego aos meus vinte anos assistindo no mesmo teatro do ‘morro não tem vez’, a uma apresentação de Clementina de Jesus e Xangô da Mangueira. Se a memória pendurasse no esquecimento o casaco que eu vestia na ocasião, podia apostar que era dezembro, 'Rio, 40 graus', e, quem sabe, noite pra se batucar a bendita data consagrada. Nada. Um dia simples. Terreiro e lua cheia, agogôs e caxixi, sons de um mantra brasileiro.
Eu fazia canções pra Nana Caymmi, Lana Bittencourt, mas o samba já ritmava meu coração carioca. Eram poucos os bares que aceitavam cavaco, pandeiro e tamborim. Mesmo esbarrando em avisos numa parede encardida, decretando ser proibido apitar, gritar, cantar, batucar ou tocar instrumentos musicais e similares, uma caixinha de fósforos bastava pra desfiar um repertório clássico, Noel Rosa, Silas de Oliveira, Geraldo Pereira, Herivelto Martins. Já estou ouvindo: “Pô, Moa! E O Padeirinho? Não vai citar o Anescarzinho do Salgueiro?
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A verdade é: desconhecia essa homenagem ao samba, dia 2, coisa e tal. Certa feita, ortografia de época, fui convidado pra seguir até Oswaldo Cruz, vagão de trem dividido, marmitas e cuícas, até cantar um samba numa distribuidora de bebidas. Data oficial, meio de semana e uma festa inesquecivel! Marquinho de Oswaldo Cruz tomou as rédeas do movimento e, por pouco, não se arrumava outro feriado pro Rio de Janeiro. Cresceu da gare se enfeitar mais que a quadra do Estácio com seus bordôs no telhado. Pois é. Anteontem me liga Mario Moraes, um amigo do Maranhão: “Cadê a festa? Que horas te encontro na Central? Aonde é que eu vou me acabar?” Ficou pra sábado.