Por felipe.martins

Rio - Costumo dizer que não sou um cristão institucional. Não obstante, ritualizo a vida e insisto em lançar sobre as festas populares um olhar afetuoso, sobretudo quando percebo que, onde amiúde campeia a escassez, as celebrações nos reconduzem ao intangível, ao encantamento, ao espanto diante do que não pode ser racionalmente mensurado no mundo. Me apropriando desta ideia, lanço sobre Jesus Cristo — não ao Messias, mas a um dos mitos fundadores do Ocidente em todas as dimensões subjetivas que ele pode alcançar — um olhar carinhosamente humano. Jesus Cristo transformou, afinal, água em vinho. Nunca transformou vinho em água. Fez isso, não custa lembrar, para não acabar com a festança da rapaziada. Disse também, naquele jantar com o fariseu escroto, que o mal nunca é o que entra, mas o que sai da boca do homem — e quebrou assim todos os tabus alimentares.

O problema, para mim, é que tem cristão que insiste em transformar Jesus em um chatonildo, inimigo dos fuzuês, dos birinaites e das alegrias. Cristo (o meu) era um farrista do bem, não era um carola ressabiado ou um pregador intolerante. É por isso que sou do cristianismo popular: bebo e compartilho da boa mesa com os meus amigos e camaradas e com qualquer um que seja gente de bem. E não sento em mesa de bar — um templo — com fariseus que queiram ditar regras e impor grosseiramente suas verdades.

O meu Jesus, afinal, é aquele dos presépios mais precários, das bandinhas de pastoris e lapinhas do Nordeste, dos enfeites formosos das moças dos cordões azul e encarnado e das folias que alumbram de brasilidades os fuzuês que, no mês de janeiro, homenageiam — entre cachaças, cafés e bolos de fubá gentilmente servidos — os Santos Reis. Nestas festas, os cantos, louvores, comidas, leilões de prendas, namoros, cheiros e bordados, falam de afetos celebrados que permitem a subversão, pelo rito, da miudeza provisória da vida.

O Cristo dos meus delírios se sentiria mais à vontade em um botequim de esquina do que na Basílica de São Pedro. Sua humanidade divina se manifesta mais nas mãos calejadas dos devotos do Círio de Nazaré do que nas batinas sacerdotais e nos ternos bem cortados dos condutores do bonde da aleluia. Ele é um pequeno; pedrinha miudinha. Respeita Tupã e Olorum, joga na várzea, bebe nos subúrbios, rala nas fábricas e, quando o sol vai quebrando lá pra fim do mundo pra noite chegar, descansa feito João Valentão e adormece como um menino pobre do Brasil.

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