Por bferreira
Rio - E claro que o ano acabou. Estamos em pleno primeiro dia útil de 2016, segunda-feira, aquele diazinho complicado, que demanda coragem especial. Estamos saindo das comemorações do Natal embarcados no Réveillon e, portanto, cansados. As tarifas já foram reajustadas, esperando nosso dinheirinho, tudo velho como sempre. O ano promete incerteza e traz uma grande interrogação: o que vai ser de nós? Desejar Feliz Ano Novo só mesmo da boca para fora, para seguir a tradição e sonhar com 2016.
Essa primeira segunda-feira, com certeza, não tem cara nenhuma de felicidade. Aqui no Rio, o prefeito já proibiu lavar carros e calçadas na rua. Com isso, dançou um monte de trabalhadores informais, e a cidade ganhou um número maior de carros sujos. Se terá trabalho formal para compensar quem perdeu o informal, tudo bem, mas, se não, como que fica? O que se dá em troca?
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No plano nacional nem vale a pena estacionar, vem de tudo que é lado um jeito de saquear o povo. É um inferno pensar e lembrar a inconsequência com todos de branco alegres e felizes desejando Feliz Ano Novo. Aquelas palavras bonitas, emocionadas, são coisas do momento. Intimamente? Tédio, medo, desânimo, é segunda-feira, tem IPVA, tem IPTU, e vem imposto neste novo ano fiscal.
Mas queira ou não, apesar de novo no calendário, o ano começa com velhas dívidas no cartão de crédito, no cheque especial e, para alguns, até no agiota. Contudo, o sujeito viveu a noite de passagem de ano, acomodou os sofrimentos às custas de uns goles, dançou, sorriu, confraternizou e pulou de alegria quando o ano expirou. Comprou aquela beca bacana branca, apostou no amarelo, lembrou da cor do ano passado que deu sorte ou azar e optou por outra, crente que tudo depende dela! Com todo respeito a quem acredita — eu mesmo, só até certo ponto —, não que numa noite a cor decida o próximo ano, mas se deseja, se sonha, é a esperança que nos move; caso contrário, a escuridão é assustadora. A propósito, qual será a cor de 2016?
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Preto não vale como resposta, embora o ano comece ensejando luto. Anos mortos estamos vivendo, mortos de exploração, de decadência, de cinismo e de cafonice. Tudo sem indignação, é tolice se espantar nesses dias banais! É assistir à imprensa na velha espetacularização da tragédia nesse agenciamento inevitável!
Fernando Scarpa é psicanalista