Luiz Antônio Simas: Virando lata na terra dos bacharéis

Uma pessoa revela o que em parte é a partir da maneira como trata aquela que julga estar abaixo de si

Por felipe.martins , felipe.martins

Rio - O Brasil sofre da síndrome do bacharelismo. A turma ama diploma no país que desqualificou o trabalho manual em séculos de escravidão. Vez por outra me convidam para falar sobre o que estudo — sambas, macumbas, cidade do Rio de Janeiro — em congressos e feiras literárias. Vou com o maior prazer. Acontece que quase sempre me perguntam a que instituição eu pertenço e minhas referências na plataforma Lattes. Digo que não sou um “homo Lattes” e que não pertenço a nada. Uns viram Lattes, eu viro latas.

Sou só um arteiro do saber, brincante de brasilidades, professor em colégio e aprendiz na rua. O fio condutor da minha vida é louvar meus ancestrais em uma aventura do espírito. Meu instrumento para isso é a palavra, e minhas credenciais são estas, entre botecos e bibliotecas.

Não adianta. Querem que eu pertença a alguma notória instituição do saber. Acho que o conhecimento produzido na academia é fundamental, temos que estimular a pesquisa de ponta e outros babados. A universidade é crucial, sobretudo quando reconhece que saberes não circulam apenas em torno dela.

Na minha família fui o primeiro a completar o Ensino Médio e cursar uma faculdade. Por ter vindo de uma família de trabalhadores subalternos, com escolaridade precária, percebo de longe como as pessoas, num país de oligarcas e bacharéis de todos os matizes ideológicos, tratam estes trabalhadores. O que mais vejo por aí é o famoso homem de bem que dá bom-dia ao poderoso e não faz isso com o servente do prédio.

Acho mesmo que uma pessoa revela o que em parte é, e como foi criada, a partir da maneira como trata aquela que julga estar abaixo de si. O Brasil sofre do pedantismo bacharelesco, e eu tenho uma postura, oriunda da minha criação, que nesta altura do campeonato não vai mudar: não gosto de conviver com gente pedante, não me sinto bem nos salões empedernidos, não gosto de pose, é entre os meus que me sinto confortável.

Agride-me presenciar ‘brasileiros de bem’ levantando a voz para quem não tem como se defender sem colocar em risco o trabalho. Também não topo o paternalismo de quem trata bem os que julga subalternos a partir da dicotomia do coitadinho de um lado e do iluminado solidário do outro; mas que no fundo não consegue sair do palco de um teatro que se manifesta com um gostinho de missão civilizatória hierarquizadora de saberes e técnicas. Eu disse no início que não pertencia a nada, mas percebo que menti. Vale fazer o Lattes citando como instituições a Livraria Folha Seca, o Rei Momo, o Império Serrano e o Bafo da Onça?

E-mail:luizantoniosimas67@gmail.com

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