Luiz Antônio Simas: Balanço de Carnaval

Assisti a momentos emocionantes da festa, daqueles que me levam a repetir o poeta e gritar: "Meninos, eu vi!"

Por O Dia

Rio - Não é novidade para ninguém que muitos cariocas — sou um deles — têm uma relação peculiar com o calendário: achamos que o ano começa de fato após o Carnaval. O Réveillon seria uma espécie de início das libações que só se encerram na Quarta-Feira de Cinzas, em grande estilo. Para ser exato, devo confessar que não é exatamente de Carnaval que eu gosto: prefiro mesmo as escolas de samba. Cresci desfilando e assistindo aos desfiles, venho de uma família que adora o babado e sou réu confesso desse vício. Este ano, por exemplo, foi mais um em que não brinquei na rua (acho que estou novo demais para morrer e velho para o Carnaval de rua carioca). Passei os quatro dias de folia dentro da Marquês de Sapucaí. Fiz bem.

Assisti a momentos emocionantes da festa, daqueles que me levam a repetir o poeta e gritar: “Meninos, eu vi!” Fiquei arrepiado vendo a Alegria da Zona Sul esquentar sua bateria ao som de uma curimba para Ogum, enquanto a comissão de frente batia cabeça ao grande orixá. Vi a Unidos do Viradouro cantar o samba mais bonito do ano, falando de tolerância religiosa ao contar a saga do Alabê de Jerusalém. Em uma das alegorias, um desfilante representando Jesus Cristo berrava no samba a saudação a Xangô. Vi o lindo desfile da Paraíso do Tuiuti contando a história do boi santo do Padre Cícero e vi o meu Império Serrano cantar lindamente a Serrinha e o centenário de seu poeta maior, Silas de Oliveira.

Emocionei-me no Grupo Especial com a beleza barroca da Beija-Flor e fiquei na bronca com a apologia que a Unidos da Tijuca, escola que veio com um sambaço e uma bateria impressionante, fez dos pesticidas do agronegócio. Não entendi bulhufas do desfile da Mocidade e fiquei feliz com a dignidade da Vila Isabel. Bati cabeça ao malandro batuqueiro salgueirense e saudei a apoteose da Portela, a caminho de se reencontrar com os títulos outrora corriqueiros em sua história.

Para fechar em grande estilo, assisti ao antológico desfile da Mangueira, certamente um dos momentos mais bonitos da história das escolas de samba. A Portela veio de Gulliver, a Manga veio de Iansã para saudar Bethânia. A dança de Oyá me seduziu mais que o gigantesco bonecão sendo escalado por anõezinhos. O resultado oficial sai hoje e não me interessa tanto. A campeã é uma incógnita; umas cinco escolas podem levar o caneco com justiça. Para os meus olhos e o meu coração, todavia, a Estação Primeira levou este Carnaval e ainda apresentou Leandro Vieira, um jovem carnavalesco de talento impactante. Feliz Ano Novo!

E-mail: luizantoniosimas67@gmail.com

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