Carlos Alberto Rabaça: Comunidade ou agrupamento de pessoas?

Podemos entender que todas as práticas sociais sejam aceitáveis e que nenhum indivíduo possa ser condenado moralmente

Por cadu.bruno

Infelizmente vivemos no país um clima em que nem todos se importam com a ética e a moral. Nesses dias, mais um escândalo foi denunciado: a Polícia Federal deteve Paulo Bernardo, ex-ministro de Lula e Dilma, acusado de receber R$ 7 milhões com esquema de desvios de recursos pagos por servidores em consignação. O STF considerou a prisão ilegal e o soltou. Algumas pessoas relativizam o gesto daqueles que se apropriaram de bens que a eles não eram destinados. Podemos entender que todas as práticas sociais sejam aceitáveis e que nenhum indivíduo possa ser condenado moralmente? Melhoramos ou pioramos em relação ao tempo em que o homem vivia sem ordem e sem lei?

A indignação do homem de bem reflete a perplexidade diante de tanto descalabro, assim como o do permanente estado de impunidade. Faltam-nos exemplos, quando vemos políticos e empresários perdendo a referência do bem e da honestidade. Que podemos esperar de uma nação onde só os espertos se dão bem? Maus exemplos, corrupção e violência são traço característico de nossa cultura? Afinal, somos uma comunidade civilizada ou um agrupamento de pessoas sem princípios e moralidade?

Uma comunidade é constituída de gente com objetivos comuns, com mecanismos de ajuda, de autoproteção e preservação recíprocos. Já um agrupamento é composto de pessoas que têm objetivos que eventualmente coincidem, os quais ocupam um mesmo lugar e nada têm em comum. Aqueles que sujaram as mãos com o roubo de valores de empréstimos necessários para a sobrevivência de outros não sabem o que é comunidade. Não temos acesso à consciência das pessoas para saber que tipos de sentimentos viveram. Como, então, devem estar se sentindo aqueles que se envolveram no sequestro de bens que não lhes pertenciam?

A evidência do mal apela para a intuição de que não há boa razão capaz de justificar a conduta daqueles que violaram e desrespeitaram um direito de civilidade e um princípio de moralidade. Não temos acesso à consciência das pessoas para saber que tipo de sentimentos viveram. Sabemos que o bem e o mal são propriedades de situações e de pessoas. Agora o mal se alastra entre os mais simples. E o pior é que os governantes são os agentes nocivos de tanta corrupção.

Carlos Alberto Rabaça é sociólogo e professor

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