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As Caras do Rio: O Árabe do Pepê

Marco Antonio Maciel faz sucesso vendendo salgados na Praia da Barra

Por nara.boechat

Rio - Um sonhador na hora do bronze poderia imaginar que se teletransportou para o deserto do Atacama quando ele chega na areia vestido de árabe, montado num camelo que toca música e ao lado de uma odalisca dançando até o chão. Mas suas deliciosas esfirras não têm nada de miragem. Marco Antonio Maciel, 59 anos — o Árabe do Pepê, Kalifa ou Sadam Hussein — acontece na orla carioca há 30 anos e garante ter sido o pioneiro da comida árabe na praia. “Depois, uns 200 me imitaram. Mas quando chego, saem correndo”, gaba-se o dono da barbicha branca.

Marco Antonio Maciel faz sucesso vendendo salgados árabes na Praia da BarraJoão Laet / Agência O Dia

Fora do personagem, Marco não tem nenhuma ligação com o mundo árabe. Nasceu em Campos do Jordão, São Paulo, e é descendente de italiano, mas tem o maior sonho de visitar o Marrocos porque “queria principalmente conhecer um harém”. Nosso herói de hoje foi discotecário por 13 anos, mas sentiu que estava ficando velho e “queria outras emoções”. Aproveitou seu dom para a música na seleção de melodias do camelo. Apesar da culinária estar no sangue (seu pai era dono de restaurante), ele aprendeu a fazer os salgados observando cozinheiros e começou a vender em Copacabana. Depois de 10 anos, se estabeleceu na Praia da Barra, onde aguça o paladar até hoje.

Há cinco anos, quando começou o boom de ‘habib’s’ na areia, ele encomendou a amigos da escola de samba da Mangueira seu camelo, que batizou de Cabul. Chamou uma frequentadora da praia para ser sua odalisca e montou a cena para se diferenciar. Onde chega é atração, sobretudo para as crianças, e o camelo já virou até bem tombado do Rio.

“Tenho 15 roupas de árabe e uma costureira própria. Até alugo minhas vestimentas para festas. No verão, chego a vender mil peças por dia”, comemora Marco, que cobra R$ 6 por salgado, R$ 12 a kafta, R$ 8 o kibe de bandeja e R$ 25 o sanduíche completo. O carro-chefe é a esfirra de carne. Os preços parecem salgados, mas são para pagar os quatro ajudantes da praia, dois da cozinha, um motorista e a odalisca. Para ninguém reclamar, o Árabe do Pepê oferece máquina de cartão de débito e crédito. Aliás, seu comércio está tão chique que a BBC de Londres veio aqui fazer matéria com ele e agora uma emissora de lá vai gravar programa ao vivo.

'Já estou na terceira geração de gente alimentada na praia'%2C Marco Maciel%2C ambulanteJoão Laet / Agência O Dia

Além de tocar seu negócio, Marco faz campanha para manter a orla limpa. Mesmo no inverno, está nas praias se fizer sol. Também trabalha em eventos grandes da cidade, como feiras e shows. Faz os salgados na sua casa, no Caju. “O tempero e o ponto certo da massa são o segredo”, arrisca. Kalifa agora pretende fazer camelo mais moderno, com movimento e tudo, e sonha criar um ônibus do árabe, com “cozinha para levar para todo canto”. Normalmente, seu trajeto é do Barra Bit até o Hotel Praia Limpa, na área do Pepê. O Cabul mora num estacionamento lá perto. “Enquanto tiver saúde e disposição, vou continuar. Já estou na terceira geração de gente alimentada na praia”, orgulha-se ele, que agora evita comer seus próprios kibes já que está de dieta.

QUANDO FOI INAUGURADA A BARRACA DO PEPÊ?
A primeira foi aberta em 1981, na praia do Pepino, onde até hoje aterrissam asas-delta que decolam da Pedra Bonita.

AGORA JÁ SE EXPANDIU, É?
Isso! Virou uma franquia, presente até em shoppings centers, vendendo sanduíches naturais, salgados integrais, sucos de frutas e açaí.

QUANTAS PESSOAS MORAM NO CAJU?
São cerca de 20.500 habitantes no bairro da zona Norte onde mora Marco. Faz limite com Benfica, Maré, Vasco da Gama e Santo Cristo.

QUANDO SUA OCUPAÇÃO COMEÇOU?
Em meados de 1800, é um dos bairros mais antigos da cidade. Mas só em 1981 este foi emancipado do bairro de São Cristóvão.

SEMPRE FOI COMO É?
Não! Entre 1820 e 1940 foi um bairro nobre, mas, hoje em dia, possui mais características de um bairro pobre do que do centro de uma grande cidade.

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