Sonho de crescer na vida une avó de 58 anos e mãe de 34 no Caic da Nova Brasília
Por nara.boechat
Rio - O que há em comum entre uma mulher de 33 anos, recém-separada e com três filhos por criar, e uma senhora de 58, já avó? Acerta quem marcou “aproveitar as oportunidades com a pacificação”. Desde dezembro, a mãe Luciana Regina da Silva e e avó Maria Madalena Raimundo dos Santos dividem o mesmo sonho no Caic Theóphilo de Souza Pinto, em Nova Brasília, no Alemão, em busca da dignidade que só agora começa a se oferecer a quem durante décadas roeu o osso da violência na comunidade.
“Meu pai era muito ignorante e a toda hora me tirava dos estudos”, conta a capixaba Maria Madalena, 58, seis irmãos, orgulhosa por participar das aulas do projeto UP with English, bancado pelo Consulado americano e uma petroleira. Lá, Maria Madalena dá sequência a sua incrível história de superação. Em três anos, desde que decidiu voltar a estudar, completou o 1º grau e está prestes a concluir o 2º. A média acima de nove fez com que o deboche inicial dos jovens se transformasse em respeito. “Ano que vem vou fazer Psicologia”, garante ela, que ganhou um lap-top do Estado após um concurso cultural.
Luciana Regina da Silva no pátio do Caic na Nova Brasília%3A ela ameaçou se demitir caso não tivesse tempo suficiente para estudar inglêsJoão Laet / Agência O Dia
Enquanto a faculdade não vem, o sábado é do inglês. Os dois filhos, já criados, não sentem tanto a sua falta. “Entendo meu pai, ele precisava de mim para criar meus irmãos”.
Luciana Regina da Silva, 33 anos, é mais pragmática. Ambiciosa, a moça, que trabalha numa fábrica de laticínios, quer transformar a qualificação em salário. “Quem tem inglês melhora de vida”, diz. Ela conta que teve de bater o pé para dedicar o fim de semana livre aos estudos. “Disse que ia embora e aí resolveram me dar a folga”.
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Nem mesmo o preconceito dos próprios filhos — o menor, Rafael, riu dela e perguntou porque a mãe iria para uma escola, já que ela era “velha” — a impediu de seguir adiante. Para ela, sua força de vontade de voltar aos estudos após a maturidade, pode servir de exemplo ao mesmo filho que tripudiou de sua decisão. “Hoje em dia, para qualquer emprego, se pede inglês e informática. Não quero meus filhos andando por aí à toa. Posso dar exemplo”.
Instituto Shyntesis se une ao ‘Rio, Cidade sem Fronteiras’ para cursos de línguas
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A oportunidade de estudar espanhol e qualificar crianças de 14 a 18 anos uniu o projeto ‘Rio,Cidade se Fronteiras’, do DIA, e o Instituto Shyntesis, responsável por apoiar o desenvolvimento da região do Estácio: semana passada, as comunidades da Mineira e do São Carlos receberam a assistente social da empresa em busca de novos alunos. E deu certo.
“Meu filho vai estudar línguas”, disse Kelly Cristina Ramos, uma das primeiras da fila. “A Copa e a Olimpíada estão aí”. Uélinton Matheus Cunha, 14, teve de concordar — mesmo que com uma pitada de contragosto. “Mas já pensou se eu arrumo trabalho com turista?”, vislumbrou. O projeto ‘Assunto Jovem’, segundo a assistente social Emanuele Melo, não trabalha apenas línguas. No cardápio, estão educação sexual e oficinas de cidadania. “Sabemos das dificuldades destes jovens. Para se ter uma ideia, a última turma não sabia que existem outros métodos anticoncepcionais além da camisinha”. Bingo!