Por tamyres.matos

Rio - As críticas à falta de continuidade de projetos na área de Saúde, além da ausência de diálogo entre poder público e moradores, marcaram o sétimo debate da série ‘Rio, Cidade sem Fronteiras’, quarta-feira, na Matinha, Rio Comprido. Mediada pelo jornalista André Balocco, a mesa foi formada por Cris dos Prazeres (ONG Proa), Wanda Guimarães (ONG Cedaps), Evandro Machado (Centro Cultural Fazendo Arte) e Terezinha de Souza (Associação de Moradores da Coroa).

“Prevenção não se faz em um dia. Vejo programas maravilhosos acabarem porque outro governo não continuou”, criticou Terezinha. “É lamentável, a população fica à mercê de continuidades.” A líder comuntária reclamou da falta de comprometimento de médicos: “Na Coroa, a equipe do Saúde da Família atua há dois anos e ainda não terminou o cadastramento.”

Há 20 anos no Cedaps, ONG de promoção à saúde que interliga governos e comunidades, Wanda Guimarães concordou com Terezinha. Para ela, que atua em 153 favelas, os governantes precisam de atenção às demandas da população. “Tão importante quanto dar remédio e médico é discutir com as pessoas as suas necessidades e não as das prefeituras e associações”, ressalta.

Evandro (E)%2C Terezinha%2C o mediador André Balocco%2C Wanda (microfone) e Cris dos Prazeres Alexandre Brum / Agência O Dia

Ela citou como exemplo o trabalho de campo numa comunidade em Santa Cruz. Chegando lá, sua equipe avaliou que o mais importante era impedir a livre circulação de porcos no meio das pessoas — um vetor de doenças. Surpreendentemente, ao escutarem os moradores, descobriram que, para eles, o mais importante era cercar o campo de futebol. “Só entendemos a razão quando vimos dezenas de crianças mutiladas. Elas saíam atrás das bolas e eram atropeladas”, diz.

Zoraide Gomes, a Cris dos Prazeres, alertou para a importância de a comunidade se manter mobilizada na luta por seus direitos. Cris, que também trabalha com reciclagem no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, defendeu mais pressão nos governantes: “Não adianta reclamar aonde vivemos, temos que aprender a reclamar nos lugares certos, ir aos órgãos.”

Plateia pergunta sobre sexualidade

Além da apresentação de uma peça na abertura, o debate teve como atração a exposição de quadros do pintor Abelardo Roque. E foi dele uma das perguntas mais impactantes no fim do encontro, quando o tema sexualidade tomou conta da plateia.

“Quero saber mais sobre o Viagra”, disse Abelardo, 64 anos. Wanda Guimarães respondeu que o interesse de pessoas com mais de 60 anos é normal, por conta da vida sexual ativa: “Para muitos, a modernidade serve para tudo, menos para o sexo. É preciso usar camisinha.”

Cris dos Prazeres pediu que mais sexo não signifique mais gravidez. “Nos Prazeres, colocamos garrafas PET com camisinhas no bar, no beco, onde o pessoal transa. Precisamos aproximar a saúde da comunidade”, disse. Já Rafaela Sampaio lembrou que, nas unidades de saúde, existe planejamento familiar: “Pode-se ter acesso a camisinhas, pílulas e gel lubrificante.”
Várias meninas da comunidade esclareceram dúvidas ainda comuns, como saber se podem engravidar caso os parceiros ejaculem nas suas pernas.

Lixo impõe toque de recolher

Outro ponto abordado no encontro, além das críticas à gestão da saúde em si, foi a questão do lixo. No Turano, Coroa e Prazeres, a falta de coleta e o descarte irregular pelos moradores trazem problemas.

“Temos um ótimo espaço aqui no ‘Fazendo Arte’, mas não podemos usar após 19h, porque as ratazanas tomam conta do local”, lamenta Evandro Machado, coordenador do espaço onde aconteceu o debate. No local, acontecem projetos sociais com dezenas de crianças. “Há várias lixeiras aqui na minha porta. Já reclamei com a Comlurb, mas eles dizem que não têm onde colocar.”

A moradora Deise Cerqueira fez coro. “Lá em cima, na comunidade do Rodo, temos uma montanha de lixo”, disse. Já Terezinha afirmou que na Coroa, há muita doença, “e pelo mesmo motivo.”

‘Sem Fronteiras’ gera parcerias

Nove jovens loucos por experimentar a vida e uma missão: passar incólume sobre a tentação das drogas e do sexo sem proteção. Este foi o tema da esquete apresentada na abertura pelo grupo ‘Fazendo Arte’. A peça ‘Bobeou, Dançou’, em cartaz aos sábados, na Matinha, agradou Wanda Guimarães, que convidou o grupo a participar do Seminário Nacional Fala Comunidade: “Já vi várias peças sobre prevenção e é difícil encontrar um grupo tão harmonioso. O texto está ótimo.”

Os atores aceitaram na hora e destacaram a oportunidade de formar parcerias, o que veio com o debate. “Essa integração é ótima. Antes, era difícil conseguirmos essas conexões, mas desde que O DIA começou a fazer estes encontros, temos conseguido novas parcerias”, agradeceu Evandro.

Este é o sétimo debate da série, que começou no Vidigal, em dezembro de 2012, com o tema ‘Pacificação, e Agora?’; depois foi para os Prazeres, ‘Educação’; Borel, ‘Habitação’; Mineira, Esporte; Fallet, Lideranças Comunitárias; e Salgueiro, ‘Produção Cultural nas Favelas’.

Reportagem: Tássia di Carvalho

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