Vidigal já tem mais de mil moradores estrangeiros

Cálculo é de associação, que mostra ainda que gringos lamentam a falta de estrutura, mas adoram a vida na favela e se dedicam a trabalhos voluntários

Por tamyres.matos

Rio - Eles chegaram devagarinho, como quem não quer nada, atraídos pela pacificação do morro. Pouco a pouco, foram se espalhando pelas vielas do Vidigal, satisfeitos com o baixo preço dos aluguéis, e se misturaram aos moradores. Cidadãos do primeiro mundo, se engajam em trabalhos voluntários e, segundo o presidente da Associação de Moradores, Marcelo da Silva, já passam de mil. São os ‘gringos de favela’, fenômeno que vem se intensificando nas comunidades da Zona Sul.

O alemão Andre Koller%2C os espanhóis Edgar Costa e Miguel Plaza%2C e o guatemalteco Alberto Hertleben na escadaria de acesso ao ArvrãoAlexandre Brum / Agência O Dia

“Às vezes até esqueço que estou no Vidigal”, conta o arquiteto Guto Graciano, que abriu um escritório na favela em sociedade com Carlin Lopes — nascido em Cabo Verde, na África — e a norueguesa Tanja Olsen. “Aqui tem mais gringo do que no Leblon. Também aposto em mais de mil moradores.”

O comentário de Guto parece certo. Nos finais de tarde no Arvrão, conhecido point local no alto do morro, é comum se escutar ‘Au Revoir’ (‘Adeus’, em francês), ‘¿Qué tal?’ (‘Como está?’, em espanhol) ou Guten Tag (‘Bom dia’, em alemão).

“Quem tem preconeito com a favela são vocês, brasileiros do asfalto”, provoca o estudante Alberto Hartleben, nascido na Guatemala e à vontade com as gírias que aprendeu em um ano e meio de Vidigal. “Sou um aventureiro, gosto de chegar onde as pessoas têm medo de ir”, continua o jovem de 23 anos, filho de uma professora indígena e um ex-guerrilheiro.

O interesse pela favela não tem fronteiras — nem idade. O designer alemão André Koller, 39, já enxerga a vida de outra maneira, mas também se derrama em elogios ao morro. Nascido em Wolfsburg, na favela desde 2009, vê avanços com o processo de pacificação, que chegou dois anos depois dele. Mas também critica a falta de serviços básicos, como saneamento. “Ficou melhor, mas há sérios problemas de acesso, com escadarias íngremes. E o trânsito, já que todo mundo no Brasil agora tem carro”, brinca o alemão. “Há problemas também com internet e banda larga. Ah, e falta um café expresso.”

Como Alberto, que desenvolve trabalho de sustentabilidade com as crianças, Koller também doa seu tempo à favela. Ele fez o primeiro mapa digital do morro, com nomes de ruas, localização e formas de acesso. A incorporação ao mapa da Chácara, comunidade vizinha, aconteceu no fim de 2013, com a segunda versão do ‘Vidigal 100 Segredos’. “Vendi alguns anúncios para pagar a impressão, mas nem isso consegui. Antes da pacificação não teria coragem de mapear a favela.”

Favela tem até jornalista espanhol

A diversidade da favela é um ambiente e tanto para quem trabalha com a notícia. Para o jornalista espanhol Edgar Costa, 34 anos, caiu como uma luva. O gringo usa a favela onde mora como base para produzir e escrever matérias para jornais e televisões da Espanha. Seu forte é o turismo.

“Cheguei para cobrir o Carnaval de 2012 e fiquei. Só o Brasil foi capaz de me parar”, conta. Edgar ficou um mês e meio na casa de um amigo antes de alugar um barraco. “Um dos meus primeiros trabalhos foi aqui. Me apaixonei de cara”, continua. “O Rio vive um momento especial. Adoro convidar os amigos para a minha laje.”

O caboverdeano Carlin%2C a norueguesa Tanja%2C o presidente da associação%2C Marcelo e o morador Guto GracianoUanderson Fernandes / Agência O Dia

A laje também atrai o espanhol Miguel Plaza. Arquiteto, ele trabalha com pintura ‘que não aparece’, como diz. No momento, cuida do quiosque no Arvrão, reaberto pela Associação de Moradores para aproveitar a passagem dos turistas. Para ele, pode-se entender a razão que atrai estrangeiros para a favela. “Na Espanha está ok, tudo arrumadinho, nada pode sair fora do lugar. Aqui, não. Há vida em todos os lugares!”

INFLAÇÃO EM ALTA NOS MERCADINHOS E ALUGUÉIS DO MORRO

Apesar do clima de curiosidade mútua entre estrangeiros e moradores da favela, a ‘invasão dos gringos’ gera efeitos colaterais para os moradores mais pobres. O primeiro deles é a inflação na favela, local reconhecidamente carente de bons mercados. De acordo com Marcelo da Silva, os preços nas vendas locais enlouqueceram. Literalmente.

“A maioria dos mercados tem produtos de baixa qualidade e, mesmo assim, os preços estão lá em cima”, conta o presidente da Associação de Moradores local. “Até para comprar comida está mais caro. Um refrigerante de dois litros, por exemplo, sai a R$ 8,00. E muitas vezes eles cobram mais caro dos gringos.”

Marcelo acredita que o processo de mudança no perfil dos moradores da favela é irreversível. O sobe e desce constante de caminhões com materiais de construção demonstra que a mudança veio para ficar. “Há muita construção na favela já prometida para os de fora e infelizmente vejo moradores antigos sendo obrigados a ir embora por causa do preço dos aluguéis”, diz. “Há duas imobiliárias aqui e o pessoal, que na época da guerra do tráfico só levava prejuízo, agora quer seu lucro. Não posso condenar.”

E não condena. Apesar da preocupação com o processo, Marcelo compõe bem com os estrangeiros que ‘invadiram’ a favela. E gosta da ajuda que vem recebendo de muitos deles, sempre dispostos a doar parte de seu tempo para a melhoria da qualidade de vida dos moradores. “Tem um gringo dando aula de ioga na praça por R$ 5,00”, diz. “Eles vêm muito aqui na Associação. Outro dia uma francesa começou a organizar uma feira só com produção de moradores. Deu certo.”

Marcelo diz que nunca ouviu queixa de moradores sobre a ‘invasão’. Caixa de ressonância da favela, abre suas portas para quem quiser ajudar. E garante que, entre prós e contras, o saldo dos gringos é positivo. “Eles sempre participam. Na balança, está sendo bom.”

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